sexta-feira, 22 de outubro de 2021

(2009) My Son, My Son, What Have Ye Done


EUA (filmado também no México, no Peru e na China) | 91min | HDcam | cor
Roteiro: Herbert Golder e Werner Herzog
Direção: Werner Herzog
Produção: Jimmy Balodimas, Eric Bassett, Herbert Golder, Bingo Gubelmann, Keith Kjarval, Benji Kohn, David Lynch, Giulia Marletta, Ken Meyer, Julius Morck, Stian Morck, Paul E. Noack, Chris Papavasiliou, Jeff Rice, Ali Rounaghi, Jack Sojka, Rick Spalla, Austin Stark
Montagem: Joe Bini e Omar Daher
Som: Greg Agalsoff, Alex Bushe, David A. Cohen, Ronald Eng, Luke Gibleon, Dean Hurley, Mark Jennings, Willard Overstreet, Robin Harlan, Klint Macro, Sarah Monat
Fotografia: Peter Zeitlinger
Música: Ernst Reijseger
Elenco: Michael Shannon, Willem Dafoe, Chloë Sevigny, Udo Kier, Grace Zabriskie, Loretta Devine, Irma P. Hall, Michael Peña, Brad Dourif, Dave Bautista, James C. Burns, Noel Arthur



“Um filme de terror sem sangue, motosserras ou sangue coagulado, mas com um medo estranho e anônimo tomando conta de você. 1

É assim que Werner Herzog, em seu site oficial, define My Son, My Son, What Have Ye Done (em português, ‘Meu Filho, Olha O Que Fizeste!’), filme inspirado na história verídica do assassino Mark Yavorsky, que, em 1979, matou a mãe golpes de sabre.

Estudioso e jogador de basquete promissor, Yavorsky também tinha futuro promissor em artes dramáticas na faculdade, até abandonar o campus e sair do elenco do drama de Orestes, o matricida de Eurípedes, em aparente surto psicótico. E assim se deu o crime, tal e qual na encenação.

E o filme já começa introduzindo esses elementos reais e mais uns imaginados: o detetive que chega à cena do crime de matricídio (com direito a reféns na casa) – cometido por um homem que enlouqueceu após ‘ouvir a voz de Deus’ durante uma estada no Peru e resolver imitar a peça teatral que encenava –, a passiva esposa e o eloquente professor de artes cênicas do criminoso.

Willem Dafoe faz o investigador que conecta as duas linhas do filme: o presente, com os policiais negociando com o assassino vivido por Michael Shannon e buscando pistas/explicações com a esposa, Chloë Sevigny, e o professor, Udo Kier; o passado, com a mãe do protagonista, interpretada por Grace Zabriskie, superprotegendo e atormentando seu filho à exaustão e na mesma medida, culminando na união cruel entre talento artístico e pulsão de morte.


Michael Shannon, ótimo como Yavorsky


Embora incensado como uma parceria entre Werner Herzog e David Lynch (que eu nem curto, mas enfim), a realidade é bem menos empolgante: Lynch é só um dos produtores, e na prática é mais uma oportunidade que o alemão usou pra conseguir dinheiro que financiasse seus projetos mais pessoais.

Então, no geral, My Son, My Son, What Have Ye Done navega pelas águas fílmicas como um Bad Lieutenant: Port Of Call New Orleans, só que sem um filme original para comparação e com uma história bem mais interessante.

Como diz o crítico norte-americano de cinema Jeff Shannon: “É também uma bagunça principalmente incoerente, mas isso não o impede de ser uma curiosidade divertida como a obra anterior de Herzog, Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans. (...) “É tudo alimento para um passeio sem rumo, mas amigável, através das preocupações estabelecidas de Herzog, incluindo um desvio do homem contra a natureza para o Peru.2

O jornalista britânico especializado em cinema Zan Brooks acrescenta: “O diretor parece mais interessado em pegar um gênero de filme - neste caso, o thriller de investigação policial - e reduzi-lo a seus componentes básicos; quebrar o molde para deixar a estranheza sangrar. O ritmo é glacial e as emoções que existem vêm da estranheza.” 3

Sabemos a preguiça que Herzog tem com filmes ‘de estúdio’ e que ele não é exatamente hábil com narrativas convencionais. Há bons momentos no filme: tem flamingos, de verdade e de mentira, e flamingos sempre são bem-vindos; Michael Shannon entrega um personagem convicente e cheio de camadas (ainda que mal exploradas); a direção crua, feito documentário, encaixa na história, e o tom geral da projeção é cinzento e melancólico.

Porém, é tudo muito estereotipado: o policial experiente, sempre com ar de que sabe tudo e viu tudo nessa vida de crimes; o diretor de teatro entre o afetado e o paternal com seus alunos; a esposa unicamente como vítima das circunstâncias, que nada pode contra as desrazões do marido ou da sogra; a mãe superprotetora que trata o filho como um bebê crescido; o protagonista que endoidece com ares de ‘sabedoria que ninguém atinge’ – e seu enlouquecimento é episódico (por meio de flashbacks) e mal resolvido.


Como afirma Zan Brooks, esse ir e vir de acontecimentos, cenários e personagens, tudo meio frouxo (tal como em Bad Lieutenant...), “engana e exaspera em igual medida. A experiência é mais ou menos como assistir a um filme barato na TV enquanto toma uma medicação pesada. Começa-se a fixar-se em detalhes aparentemente descartáveis ou a detectar uma poesia turbulenta nas linhas de diálogo mais banais”. 4

É inegável que, tal como no filme anterior, Herzog está se tanto divertindo com os clichês quanto falhando em subvertê-los totalmente: falei bem dos flamingos, mas não fica explicada a obsessão da mãe [e, conseguentemente do filho] por eles; outros signos, como espelhos e travesseiros, também parecem gratuitos; a ligação com o basquetebol aparece jogada no final do filme; e tem até uma cena absurda/psicodélica? à “cena das iguanas” de Bad Lieutenant..., além de uma tentativa de quase-humor no encerramento do filme.

Claro que o crítico norte-americano de cinema Roger Ebert (1942–2013) exagera nas qualidades da obra, mas não deixa de ter sua razão: "
My Son, My Son, What Have Ye Done, de Werner Herzog, é um exemplo esplêndido de um filme que não está no piloto automático". (...) por outro lado, confunde todas as convenções e nega todos os prazeres esperados, proporcionando, em vez disso, o deleite de assistir Herzog colocar a fórmula do refém x policial no liquidificador de sua imaginação. É como se ele começasse com o esboço de um procedimento policial incrivelmente rotineiro e dissesse 'para o diabo, vou pendurar minha fantasia neste varal'”. 5

Enfim, não é ruim como o filme anterior – até pela ausência de Nicolas Cage – mas faltou mais carinho com o que o filme tem de bom, além do elenco e do ótimo plot: a deterioração mental e o pseudomessianismo do personagem e o tom de inevitabilidade, de tragédia grega, que permeia toda a projeção.


Entregue ao papel


Pode-se argumentar que My Son, My Son, What Have Ye Done é coerente com a obra herzogiana por apresentar um personagem louco e megalomaníaco; isso pode explicar o interesse do diretor pela história, mas Yavorsky, por mais interessante que seja, está muito distante da grandeza de um Stroszek, por exemplo.

Como resumiu Roger Ebert: “Ora, a impaciência do diretor com as convenções, é isso”. 6

Até o próximo episódio da #MaratonaHerzog, de volta aos documentários, com Cave Of Forgotten Dreams.


Curiosidades:

– Durante anos, a sanidade de Yavorsky foi assunto de disputas jurídicas: um juiz o considerou inocente por insanidade, e o assassino passou anos no Patton State Hospital, no condado de San Bernardino;

–  após anos entrando e saindo de abrigos e casas de custódia, Mark Yavorsky morreu em 2003, aos 58 anos;

- o projeto começou com um roteiro do assistente de diretor de Herzog, Herbert Golder, em 1995, e ficou parado até ser sugerido para David Lynch num encontro entre os dois cineastas;

– Herzog afirmou que cerca de 70 por cento do roteiro é falso, por ele e Golder desejaram se desviar dos eventos verdadeiros e, em vez disso, focar no estado mental do personagem principal;

– a casa onde ocorre a “ação presente” do filme fica em Point Loma, San Diego, perto de onde Yavorsky morou, o que deixou os Shannon e Zabriskie entusiasmados, embora o produtor Eric Bassett diga que a escolha do local foi por razões financeiras, e Herzog, que foi simplesmente questão de conveniência (?);

– essa locação é muito perto do Aeroporto Internacional de San Diego, o que às vezes tornava as filmagens difíceis, com membros da equipe posicionados no telhado com binóculos para alertar a tripulação sobre os voos, que atrapalhariam a captação de som das cenas;

– algumas cenas foram filmadas no Rio Urubamba, no Peru – local apreciado por Herzog e que apareceu em Aguirre, Der Zorn Gottes e Fitzcarraldo – em vez do Rio Braldu, no norte do Paquistão (onde Yavorsky realmente teve uma viagem que mudou sua vida), por razões de segurança;

– a sequência de Shannon vagando por um mercado ao ar livre lotado (cena sem vínculos narrativos com o resto da história) foi filmada em um mercado em Kashgar, região autônoma de Xinjiang Uygur, na China, por Herzog e o produtor Eric Bassett, ambos com visto de turista e uma pequena câmera digital, a fim de evitar o longo processo de obtenção de licenças para fimagem no país;

– naquela que é provavelmente a sequência mais surreal do filme, temos a clássica canção mexicana Cucurrucucú Paloma (Tomás Méndez, 1954) na célebre versão de Caetano Veloso.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

(2009) Bad Lieutenant: Port Of Call New Orleans

EUA | 122min | 35 mm | cor
Roteiro: William Finkelstein
Direção: Werner Herzog
Produção: Stephen Belafonte, Randall Emmett, Avi Lerner, Alan Polsky, Gabe Polsky, Edward R. Pressman, John Thompson
Montagem: Joe Bini
Som: Joshua Adeniji, Michael Baird, Robert Dehn, Jason Dotts, Levent Erdogan, Brent Findley, Allie Fitz, Jason Gaya, Judah Getz, Corey J. Grasso, Richard Kitting, Tiffany Lentz, Jay Meagher, Zach Michaelis, Randy Pease, Walter Spencer, Jonathan Wales
Fotografia: Peter Zeitlinger
Música: Mark Isham
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes, Val Kilmer, Alvin Joiner, Fairuza Balk, Shawn Hatosy, Jennifer Coolidge


"What are these fucking iguanas doing on my coffee table?"

A #MaratonaHerzog às vezes exige grandes sacrifícios, como ver um filme ‘franquia de produtor’ convencional – e sabemos como o alemão é preguiçoso com filmes ‘normais’, ainda mais quando não são projetos dele –, e estrelado pelo pior ator de todos os tempos.

Bad Lieutenant: Port Of Call New Orleans (no Brasil, ‘Vício Frenético’) é uma espécie de reimaginação – picaretagem dos produtores – do cult Bad Lieutenant, de 1992, dirigido por Abel Ferrara e estrelado por Harvey Keitel. Em comum, ambos têm apenas o tema ‘policial on drugs muito louco’; assim como fiz com Nosferatu, vou analisar o produto herzogiano independentemente do filme original, sem qualquer comparação.

O filme começa prosaico e apressado: New Orleans, pós-Katrina, o detetive Terence McDonagh vai salvar um detento que está se afogando em um presídio alagado e acaba lesando a coluna; sem mais explicações sobre o salvamento ou a lesão, o médico lhe prescreve Vicodin® pra vida toda, simples assim. Seu ato de bravura, pelo menos, rende a promoção a tenente. Corta pra um ano depois e ele já está viciado em cocaína. Uma família de imigrantes africanos é chacinada, aparentemente por traficantes de drogas, e Terence é nomeado para liderar a caça aos culpados. E é aí que reside o conflito do filme, pois seu envolvimento progressivo em atividades ilegais – drogas, prostituição, apostas – não apenas vai colocar a missão em risco, como também comprometer seriamente sua bússola moral.

Loko

Além do dinheiro, claro, dá pra entender o que atraiu Herzog para esse projeto: o protagonista é imprevisível e caótico, se enrolando cada vez mais devido a sua falta de limites, e Nicolas Cage, a despeito de suas óbvias limitações, se entrega ao papel, como um Klaus Kinski de baixo orçamento que não causa problemas no set de filmagem.

O próprio diretor nos conta: “Nicolas me perguntou: ‘O que o torna tão mau? São as drogas, é o Katrina?’ Não, eu disse. Existe uma coisa chamada bem-aventurança do mal. Aprecie isso. Quanto mais vil e degradado, mais você tem que se divertir”. 1

Não tem muito o que elucubrar sobre o filme, que se desenvolve de forma convencional, até meio frouxa (talvez com meia hora a menos ou melhor equilíbrio entre os atos do filme); a investigação segue quase de forma episódica, sem aquela tensão crescente de que o filme precisaria.

Basicamente o protagonista se envolve com bandidos, pede e deve favor a eles, intimida suspeitos, ameaça testemunhas (mesmo que sejam velhinhas doentes), achaca usuários de drogas (anônimos ou famosos), faz armações com prostitutas e apostadores ilegais. Não fossem os exageros de Nicolas Cage, sempre muitos tons acima (mesmo para um personagem tão degradado), poderia ser qualquer filme policial dos inícios dos 1990s.

Muito loko

E, claro, exceto por três cenas, a de um tiroteio à Scarface, que tem desfecho surreal e surpreendente, a de um crocodilo olhando em primeira pessoa, e pela famosa ‘cena das iguanas’, em que o policial, de tão alucinado, começa a ver répteis cantando (!) em sua mesa de trabalho. São dois momentos em que surge o distorcido humor bávaro do diretor, mostrando que não apenas o ator principal estava se divertindo na empreitada fílmica.

O segundo e mais infame eu até imagino a cara dos produtores – e donos do projeto episódica – quando isso foi gravado. Herzog nos conta: “As iguanas, por exemplo, foram ideia minha. Achei que as drogas estavam destruindo a mente de Terrence. Então, vamos deixá-lo ver iguanas. Vamos fazer a iguana cantar”. 2

Segundo Nicolas Cage, a epifania de Herzog aconteceu em uma festa no meio das filmagens. "Werner bebeu alguns drinques. Ele disse com uma voz perturbada: 'As iguanas são a melhor coisa do filme. E devo ter meus cinco minutos de iguana-time! E se eu não tiver meus cinco minutos inteiros de iguana-time, nunca mais farei outro filme!’” 3

Sem dúvida, os momentos supracitados são de impacto, ainda que surjam deslocadíssimos. Se o filme ainda fosse inteiro nessa toada, mas parece que o diretor apenas fez inserções doidas num roteiro convencional já pronto (aliás, não parece, foi isso mesmo).

A cinematografia é aquele desleixo estiloso herzgiano de sempre para filmes 'normais'; a trilha sonora, no geral, não ajuda nem atrapalha, e as atuações são OK. Mas, é claro, precisamos falar da célebre? atuação de Nicolas Cage, que virou até memes: já disse acima o que acho desse ator lamentável, e tive que me encher de boa vontade para este capítulo da #MaratonaHerzog quando vi que era um filme sob encomenda e com ele pintando & bordando. Mas sim, fui com Jesus no coração assisti-lo. Nos momentos de dor, faz cara de prisão de ventre e anda como se tivesse esquecido o cabide dentro do largo paletó. Quando quer demonstrar alteração por entorpecentes, arregala os olhos, mostra os dentes, parecendo, sei lá, que sujou as calças. Ele, inegavelmente, está se divertindo. Werner Herzog, certamente, também. Eu, já nem tanto.

A crítica, surpreendentemente, elogiou o filme (talvez por condescendência para com o mítico diretor?); o crítico norte-americano de cultura A. O. Scott, por exemplo: “Quem precisa de um Bad Lieutenant: Port Of Call New Orleans – por que ‘Port Of Call’? o que isso significa? – não é uma obra-prima, mas é, sem dúvida, a obra de um mestre. Por quase 40 anos, o Sr. Herzog perseguiu a loucura e a irracionalidade em várias manifestações – ele as encontrou, de forma mais confiável, na pessoa de Klaus Kinski – e às vezes sucumbiu ao fascínio delas. Ultimamente, ele amadureceu um pouco, examinando almas obsessivas e motivadas por meio de lentes documentais ruminativas e analisando suas paixões com um distanciamento irônico e simpático. (...) A atmosfera está impregnada de corrupção e vício, e por mais maluco que o filme às vezes seja, sua brutalidade e confusão nunca são usadas para rir. Tem uma sinceridade distorcida e uma energia que continua e continua”. 4

Também o célebre crítico norte-americano de cinema Roger Ebert (2013–1942), que provavelmente nunca desgostou de um filme do alemão: “Os detalhes do crime não precisam nos preocupar. Apenas admire a sensação do filme. Herzog, como sempre, procura os detalhes estranhos. Todo mundo está falando sobre as fotos das iguanas e do crocodilo, olhando com olhos frios de réptil. Quem mais, a não ser Herzog, sustentaria seu olhar? Quem mais os colocaria em primeiro plano, colocando a ação em segundo plano? Quem, a não ser Cage, poderia olhar uma iguana de lado com um olhar de suspeita e inquietação? Você precisa ficar de olho em uma iguana. As desgraçadas estão sempre tramando alguma coisa. (…) Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans não é sobre enredo, mas sobre tempero. Como a culinária de Nova Orleans, ela descobre que você pode colocar quase qualquer coisa em uma panela se adicionar os temperos e pimentas certos e cozinhá-los por tempo suficiente.” 5


Loko mesmo


O diretor também apreciou a recepção dos espectadores: “Nunca experimentei uma reação tão intensa a um dos meus filmes. O público pegou todo o humor negro e os detalhes sutis. Houve mais risos no meu filme do que em uma comédia de Eddie Murphy. O filme não é uma comédia, mas tem muito humor ácido”. 6


Se o filme vale a pena? Talvez se você for fã do filme original, e quiser comparar as versões, ou ser gostar muito de Nicholas Cage, ou de Val Kilmer, ou de Eva Mendes, ou mesmo do rapper (e apresentador do Pimp My Ride) Alvin "Xzibit" Joiner; fora isso, tem filme policial melhor e mais bem resolvido na praça (ainda que não seja a porcaria que eu esperava). Mas talvez eu seja apenas uma réptil amargo, afinal, como disse o crítico e diretor britânico de cinema Jonathan Romney, “De alguma forma, Herzog fez um dos thrillers mais divertidos e simples que saíram dos Estados Unidos em algum tempo. Você teria que ser uma iguana, ou Abel Ferrara, para não gostar”. 7



Curiosidades:

– o próprio Abel Ferrara foi a primeira opção para esse filme, mas se recusou a trabalhar com o roteiro de William M. Finkelstein, escritor e produtor de séries como Law & Order e NYPD Blue (no Brasil, “Nova York Contra o Crime”);

– o temperamental Ferrara não gostou nada de o projeto continuar sem ele, e, quando o filme foi lançado, disse coisas como "Desejo que essas pessoas morram no inferno, espero que todos estejam no mesmo bonde e ele exploda"; 8

– Herzog tratou de se defender, dizendo que não era um remake, que não tinha nem visto o Bad Lieutenant original, e que ainda colocou o subtítulo Port Of Call New Orleans justamente para diferenciar as obras, já que era contra a ideia de dois filmes diferentes com o mesmo nome, e enfatizou que “Ferrara tem o direito de ficar com raiva, mas este não é um remake, ele tem vida própria”. 9

– talvez percebendo que se exaltou com um colega de profissão, Ferrara ponderou que seu problema era com os produtores, dizendo “Não tenho problema com Werner; quanto a Nicolas, eu nunca poderia ter um problema com um ator, sabe o quero dizer?, como diretor, me sinto pai de todos os atores ou irmão deles”; 10

–  o alemão encerrou a polêmica com “Gostaria que Abel Ferrara visse meu filme, e se eu souber que ele assistiu ao meu, prometo que assistirei ao dele”; 11

Bad Lieutenant foi rodado em apenas 22 dias, para aproveitar a janela na agenda do protagonista;

– Em menos de um ano, o diretor terminou Bad Lieutenant: Port Of Call New Orleans, o também longa-metragem My Son, My Son, What Have Ye Done (próximo capítulo da #MaratonaHerzog), o curta-metragem sob encomenda para a tevê inglesa La Bohème¬ (que mistura Puccini com a vida dura na África e pode ser visto aqui, traduziu para o inglês seu diário fitzcarraldiano – que se tornou o livro Conquest Of The Useless ["Conquista Do Inútil", em português], fez narração para o curta Plastic Bag, de Ramin Bahrani, e ainda lançou seu próprio curso de cinema (Rogue Film School, em Los Angeles);

– curiosamente, Herzog fez uma ponta não creditada
(como ele mesmo, em imagens de arquivo) em Dangerous Game (Olhos De Serpente), de 1993, de Abel Ferrara;

– apenas uma das iguanas do filme é realmente uma iguana, o outo réptil é uma pogona, também chamada de dragão-barbudo.


1 https://www.interviewmagazine.com/film/werner-herzog-bad-lieutenant
2 6 8 9 https://www.vulture.com/2009/09/director_werner_herzog_on_the.html
3 https://www.latimes.com/archives/la-xpm-2009-nov-15-ca-bad15-story.html
4 https://www.nytimes.com/2009/11/20/movies/20badlieutenant.html
5 https://www.rogerebert.com/reviews/bad-lieutenant-port-of-call-new-orleans-2009
7 https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/films/reviews/bad-lieutenant-werner-herzog-122-mins-18-1980349.html
10 11 https://www.reuters.com/article/cultura-filme-veneza-herzog-ferrara-idBRSPE5880D420090909