sexta-feira, 28 de março de 2014

(1974) Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle

Alemanha (filmado na Alemanha e na Eslovênia) | 109min | 35 mm |cor
Roteiro, produção e direção: Werner Herzog
Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus
Fotografia: Jörg Schmidt-Reitwein
Som: Haymo Henry Heyder
Música: Florian Frickle (Popol Vuh) e excertos de Mozart, Pachebel, Lasso e Albinioni
Elenco: Bruno S (Kaspar Hauser), Brigitte Mira (Käthe), Walter Ladengast (professor Daumer), Willy Semmelrogge (diretor do circo), Michael Kroecher (Lorde Stanhope), Hans Musäus (homem desconhecido)


No domingo de Pentecostes de 1828, recolhemos na cidade de Nuremberg uma criatura abandonada que, mais tarde, chamamos de Kaspar Hauser. Ele mal sabia andar e só pronunciava uma frase. Contou-nos que, logo após nascer, viveu preso num calabouço, onde desconhecia o mundo exterior e a existência dos seres humanos, pois lhe deixavam alimento à noite, enquanto ele dormia. Não tinha noção do que era uma casa, uma árvore ou uma fala, até que um homem entrou onde ele jazia. O mistério de sua origem nunca foi esclarecido.” ¹


Solidão do início ao fim

O que é ser humano?

A pergunta que surge na obra herzogiana pela primeira vez em Land Des Schweigens Uder Dunkelheit ressurge três anos depois neste filme inspirado na intrigante história, até hoje não solucionada, de Kaspar Hauser.

Herzog acrescenta: “Na verdade, quanto a Fini Straubinger em Land Des Schweigens Und Der Dunkelheit, Bruno em Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle e Dieter Dengler [de Little Dieter Need To Fly, de 1997], essas pessoas são pontos de referência não apenas para meu trabalho, mas para minha vida”. ²

Nas palavras do estudioso de cinema alemão Brad Prager, "Herzog continua a fazer retratos de protagonistas que são de alguma forma 'inúteis' e, assim, em desacordo com o mundo ao redor deles
. ³ Kaspar Hauser é o típico anti-herói herzogiano: desajustado, inadequado, obcecado por suas verdades, até um fim desolador.

No entanto, diferentemente de Aguirre, que ambiciona dominar o mundo, Kaspar só pretende entender a parte que o rodeia, aquilo que ele descobriu havia pouco tempo. "Além disso, Aguirre sente que a terra treme sob seus pés – que ele é a Ira de Deus – enquanto Kaspar sente que sua vinda a Terra foi nada além de um grande erro. Os dois personagens, o irado Aguirre e o dócil Kaspar, surgem como imagens invertidas um do outro", Brad conclui. 4

Após a mensagem do início deste texto, o filme mostra Kaspar Hauser em sua cela, brincando com um cavalo de brinquedo, até que um homem encapotado, de chapéu, entra, conversa com ele com certo afeto. Do dia seguinte, Kaspar, que mal consegue ficar em pé sozinho, é deixado no meio da cidade com uma carta que conta sua (suposta) história.

Kaspar e seu misterioso (e cruel) tutor



Desse ponto em diante, Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle mostra a trajetória de Kaspar Hauser, da sua chegada a Nuremberg, quando é tratado como bicho, passando por sua penetração na sociedade, como alvo de curiosidade às vezes mórbida, até seu fim, com sua adaptação à civilidade e seu posterior assassinato, até hoje não solucionado.

Há incontáveis tratados sociopsicológicos sobre o filme na internet, tanto leigos quanto acadêmicos, de modo que não vou me alongar muito nessas questões, e sim tentar resolver essa obra apenas no contexto do diretor alemão.

O percurso de Kaspar Hauser é de uma cadeia para outra cadeia: da jaula física do início do filme, até as grades metafísicas que o prendem na ordem social vigente, limitando seu comportamento, o fazendo caber nos escaninhos da sociedade, da igreja, da família, da autoridade. E mesmo morto sua trajetória é resumida numa caixa conceitual fechada, bem aos moldes da época: seu cérebro era deformado, pronto, temos todas as respostas, fim.

É o único caso conhecido de um indivíduo que “nasceu” como adulto. Chegou à sociedade tendo perdido completamente sua infância e juventude, tendo que comprimir todo esse tempo de aprendizado em dois anos e meio. E o mais impressionante é que, após esse tempo, ele podia falar bem, escrever e até mesmo tocar piano com destreza.



"Por que tudo é tão difícil para mim?"

Kaspar Hauser, enquanto descobre o mundo “lá fora”, faz com que a população de Nuremberg seja confrontada, a todo momento, com uma forma diferente de ver as coisas, uma lógica nova em folha, sem contaminação por quaisquer normas ou dogmas. “É um filme sobre a descoberta e a compreensão do mundo, sobre ver o mundo pela primeira vez”, diz Herzog. 5

Sua intuição é tipicamente pré-socrática, muito longe do cartesianismo, do positivismo, das associações significante/significado. Suas inferências corretas sempre levam a conclusões "erradas" do ponto de vista lógico. Para ele, uma grande torre só pode ter sido construída por um homem muito alto. Não entende que "do nada Deus criou tudo, como vocês disseram", não consegue "admitir o mistério da fé sem tentar entender" (inclusive se irrita com o cantochão dos fieis na missa). Faz contestações à sociedade da época (“Pra que servem as mulheres?”) e até à ordenação arbitrária das coisas na natureza.

Quanto mais entende a sociedade, menos quer fazer parte dela. Chega a dizer que preferia o tempo em que vivia em um calabouço e nem distinguia entre sonho e realidade.

Afinal, fica claro para ele e para o espectador o quanto a sociedade, e as coisas que apreendemos dela (linguagem, lógica, valores, religião, cultura, comportamento) afetam – negativamente – nossa capacidade de conhecer e entender a existência. Isso inclui até a benevolência paternalista e estúpida de seus tutores.

Esses conceitos pré-determinados limitam as ideias de tal modo que é como se elas fossem imaginadas em cores, mas pudessem ser expressas de forma aceitável para a sociedade somente em p & b.

Não à toa, Kaspar Hauser sonha repetidamente com um deserto: aridez, isolamento, monotonia, falta de rumo. O controle social encarcera o indivíduo, interferindo não só em sua linguagem e expressão, mas até na consciência de si mesmo.

Nas palavras do diretor: “A história de Kaspar Hauser é sobre o que a civilização faz com todos nós, como ela nos deforma e destrói nos trazendo para dentro da linha da sociedade”. 6



"O mundo é todo mau."

O mais melancólico Herzog até agora, Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle é mais uma obra-prima inquestionável. Obrigatório.


Algumas curiosidades:

– O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio Especial da Crítica no Festival de Cannes em 1975.

– Como sempre, o filme não foi bem recebido na Alemanha, onde alguns críticos o compararam (injustamente) a L'Enfant Sauvage (1970), de Truffaut, apenas porque este é sobre um médico que cuida de um garoto selvagem, que vivia na floresta, ainda que as abordagens sejam totalmente distintas.

– Conhecido mundo afora como O Enigma De Kaspar Hauser/The Enigma Of Kaspar Hauser, o título original é a versão em alemão de uma fala do filme Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade – “Cada um por si e Deus contra todos”; ao contrário do que muitos pensam, a citação não existe no livro de Mário de Andrade.

– A performance intensa do protagonista em muito se deve a Bruno Schleinstein (1932–2010), conhecido como Bruno S., músico de rua com problemas mentais (passara juventude inteira em sanatórios) com histórico de maus-tratos maternos e que até fora cobaia de experimentos nazistas, e que nunca havia atuado profissionalmente. Nas palavras de Herzog: “Bruno estava muito consciente de que o filme era muito sobre como a sociedade o destruiu da mesma forma que matou Kaspar Hauser”. 7

Bruno S, digníssimo em todo o filme

– A despeito das infames dificuldades que houve para que ele decorasse os textos e contracenasse com o elenco, Herzog fez mais um filme com ele, Stroszek (1977), inspirado na vida do próprio Bruno.

– A epígrafe do filme – “Estes gritos assustadores ao redor são o que chamam de silêncio?” – é citação do escritor e dramaturgo alemão Georg Büchner (1813–1837), de quem Herzog adaptou para o cinema, anos mais tarde (1979), sua última peça, Woyzeck, de 1837.

– Entre as especulações sobre a origem de Kaspar Hauser, todas esdrúxulas, temos de ele ser apenas um mendigo espertalhão se fingindo de deficiente mental até ser neto de Napoleão Bonaparte.

– O filme foi distribuído nos EUA por Francis Ford Coppola, fã declarado do diretor alemão (inclusive, como já dissemos, Aguirre, Der Zorn Gottes influenciou diretamente Apocalypse Now).

– Helmut Döring, o Hombré de Auch Zwerge Haben Klein Angefangen, faz uma ponta como o rei-anão do circo de aberrações.


– Outras pontas, não creditadas, são de Walter Steiner (de Die Große Ekstase Des Bildschnitzers Steiner), Florian Ficke (de Lebenszeichen e do Popol Vuh), Herbert Achternbusch (corroteirista de Herz Aus Glas) e Clemens Scheitz (que apareceria também em
Herz Aus Glas e Stroszek).


¹
Prefácio do filme
² 6 7 HERZOG, Werner. Herzog On Herzog, de Paul Cronin. Faber & Faber, 2000.
³ 4 PRAGER, Brad. The Cinema Of Werner Herzog: Aesthetic Ecstasy And Truth. Wallflower Press, 2007.
5 PAGANELLI, Grazia. Sinais De Vida: Werner Herzog E O Cinema (Segni Di Vita: Werner Herzog E Il Cinema, 2008). Editora Indie Lisboa, 2009.

domingo, 5 de janeiro de 2014

(1974) Die Große Ekstase Des Bildschnitzers Steiner

                       Alemanha (filmado na Alemanha e na Eslovênia) | 47min | 16 mm |cor
                                                          Roteiro, produção, som e direção: Werner Herzog
                                                                       Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus
   Fotografia
: Jörg Schmidt-Reitwein, Francisco Joan, Frederik Hettich, Alfred Chrosziel, Gideon Meron
                                                                                                 Som: Benedict Kuby
                                                                                 Música: Florian Frickle (Popol Vuh)
                                                                                                    Elenco: Walter Steiner
 


Sempre senti que Steiner foi um irmão próximo de Fitzcarraldo, um homem que também desafia as leis da gravidade puxando uma embarcação montanha acima.” ¹

Lembra da primeira cena de Land Des Schweigens Und Der Dunkelheit, em que um esquiador ‘voava’ sob a narração de Fini Straubinger? Pois aquela cena audaciosa é uma performance de Walter Steiner, o protagonista deste Die Große Ekstase Des Bildschnitzers Steiner ("O Grande Êxtase Do Entalhador Steiner"), filme feito para a série televisiva Grenzstationen ("Postos De Fronteira"), da tevê alemã, sobre situações extremas.

O suíço Steiner, campeão de saltos de esqui, é também, nas horas vagas, entalhador de esculturas de madeira (e trabalha formalmente como carpinteiro), e este documentário, feito a pedido de uma rede de tevê alemã, mostra o contraste entre suas proezas heroicas, desafiando a gravidade e a morte, quebrando recordes atrás de recordes, e sua timidez e introspecção quando em seu ateliê, esculpindo suas obras, que, como ele mesmo diz, são feitas sem predeterminação e refletem as tensões do seu meio – exatamente como a vida. 

Steiner, o próprio pássaro esculpido

Tímido, retraído (sempre olhando para baixo), até um pouco bobo, desajeitado, e sempre sozinho (física e espiritualmente), ele o tempo todo dá a impressão de não ligar para aqueles recordes todos, ou para as pessoas que vão vê-lo e aplaudi-lo – na verdade, ele sente a pressão por novas marcas incríveis, ou para que acabe se estropiando num acidente (com, aliás, acontece no filme). Como tantos heróis herzogianos, ele não parece pertencer àqueles lugares, aliás, a nenhum lugar que não o céu que o abriga nos instantes em que ele parece voar com seus esquis.

O entalhador Steiner e o esquiador Steiner são artistas solitários que se apropriam da natureza – inclusive ele faz seus próprios esquis –, e essa luta mítica de um homem só contra o meio é um dos temas centrais da obra herzogiana. Não por acaso, foi escolhido um personagem taciturno que trabalha em duas atividades essencialmente solitárias, individuais, em que sucessos e fracassos repousam unicamente sobre os ombros de quem as pratica.

Solitude Standing

Por isso, o diretor não se interessa em contextualizar a carreira de Steiner, nem antes, nem durante, nem depois – tudo que você sabe é que ele era uma criança que sempre teve o sonho de voar. A ideia é recortar a realidade de modo que os feitos do esquiador-entalhador pareçam ainda mais épicos, pois surgidos do nada. É a construção cuidadosa de um mito moderno por parte de Herzog; Steiner é muito uma criação do diretor.


Confesso que estava prestes a escrever uma resenha desinteressada sobre o filme, que eu estava vendo aos poucos, dado ao excesso de trabalho, mais compromissos pessoais, e ainda as festas de final de ano. Algo do tipo “Herzog preguiçoso, sob encomenda, deve interessar somente aos fãs de esqui”. Porém, hoje, vendo a metade final da obra, percebo uma vez mais o quanto o cinema de Werner Herzog é especial em sua capacidade de supreender, inquietar, de buscar sempre o não-óbvio que soe ao mesmo tempo natural e grandioso.

Na reta final da obra, após mais uma premiação (em que, numa cena particularmente reveladora, o amplo sorriso de Steiner para as câmeras enanesce num instante, revelando sua solitude), Steiner menciona um corvo que ele tinha quando criança (provavelmente encontrado órfão e recolhido ainda pequeno por ele). Era seu único amigo, inclusive o esperando voltar da escola, no caminho de volta, numa amizade embaraçada. Porém, provavelmente devido à alimentação (pão e leite), ele começou a ficar fraco, perder as penas e não conseguir mais voar. Isso fez com que os outros corvos começassem a atacá-lo, ferindo-o tanto que o jovem Steiner foi obrigá-do a sacrificá-lo, “porque era uma tortura ver como ele era molestado por seus iguais por não conseguir mais voar”. E então um sorriso amarelo, o último, entre o conformado e o desapontado, encerra a fala.

Steiner era o corvo que tentava voar para que seus iguais não o machucassem. E então eu precisei reescrever o texto porque estava diante de um Herzog legítimo, de boa cepa, e aprendi que jamais devia subestimar aquele alemão maluco, que nunca devia ter ideias preconcebidas sobre sua obra.

E, ao som do Popol Vuh e com as imagens de mais um salto, ampliado até a distorção da cena, como pano de fundo, surge uma citação, supostamente de Steiner, mas que na verdade é inspirada em textos do escritor suíço Robert Walser (1878–1956), e que revela a condição não apenas do protagonista, mas de toda a humanidade:

Eu deveria estar sozinho no mundo. Eu mesmo, Steiner, e mais nenhuma coisa viva. Sem sol, sem cultura, apenas eu mesmo, nu em uma pedra alta. Sem tempestade, sem neve, sem bancos, sem dinheiro, sem respiração. E então eu não sentiria mais medo”.


Curiosidades:

– O orçamento de Die Große Ekstase Des Bildschnitzers Steiner foi de aproximadamente US$ 50.000.

– Para o crítico norte-americano de cinema Roger Ebert (1942–2913), Die Große Ekstase Des Bildschnitzers Steiner é "o mais emblemático filme da carreira de Herzog". E o próprio Herzog o considera “definitivamente um de seus mais importantes filmes”. ²

O grande êxtase

– O tal “grande êxtase”, segundo o diretor, é algo que apenas quem já saltou de esqui pode experimentar. “Você pode ver isso nos rostos dos saltadores no filme, enquanto eles varrem a tela em velocidade, bocas abertas, aquela incrível expressão na face”. ³


– Uma das táticas para fazer com que Walter Steiner se soltasse um pouco diante das câmeras (sim, ele era ainda mais retraído do que aparece na tela), foi, numa noite após as filmagens, e com ajuda da equipe de filmagem, agarrá-lo, colocá-lo em seus ombros e sair correndo pelas ruas com ele. Quando Steiner perguntou por que ele estava fazendo aquilo, Herzog respondeu: “Porque eu sei que não há ninguém maior do que você nesse esporte4.

Die Große Ekstase Des Bildschnitzers Steiner é o primeiro filme no qual Werner Herzog aparece diante das câmeras, como repórter.

– A história do corvo é verídica, e Herzog a descobriu quando, em contato com os familiares de Steiner, encontrou uma foto dele, quando criança, com a ave. Segundo o diretor, levou três dias para que o entalhador-esquiador concordasse em contá-la, tal a carga emocional que aquilo trazia.


¹ ³ 4 HERZOG, Werner. Herzog On Herzog, de Paul Cronin. Faber & Faber, 2000.
² EBERT, Roger. Roger Ebert's Four-Star Reviews (1967–2007). Andrews McMeel Publishing, 2008.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

(1972) Aguirre, Der Zorn Gottes


Alemanha (filmado na Amazônia Peruana) | 93min | 35 mm |cor
Roteiro, produção e direção: Werner Herzog
Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus
Fotografia: Thomas Mauch, Francisco Joan, Orlando Macchiavello
Som: Herbert Prasch
Música: Florian Frickle (Popol Vuh)
Elenco: Klaus Kinski (Dom Lope de Aguirre), Helena Rojo (Inez de Atienza), Del Negro (Carvajal), Ruy Guerra (Ursua), Peter Berling (Guzman), Cecilia Rivera (Flores), Daniel Ades (Perucho), Armando Polanah (Armando), Edward Roland (Okello), Daniel Farfan, Julio Martinez, Alejandro Repullés (índios da Cooperativa Socialista de Lauramarca, no Peru)



"De certa forma, fazendo Aguirre... me propus a criar algo de um filme comercial, certamente em comparação com Lebenszeichen e Land Des Schweigens Und Der Dunkelheit. O filme foi sempre destinado ao público em geral, e não estritamente a fãs de filmes de arte. Depois de olhar para meus filmes anteriores, ficou bastante claro que eu vinha servindo apenas a um nicho de mercado, e com Aguirre fiz um esforço consciente para chegar a um público mais vasto. (...) Na época, achava que o filme era uma espécie de teste pessoal para mim. Se falhasse, sabia que nunca seria capaz de fazer qualquer coisa que pudesse ser vista ampla e internacionalmente, e que eu teria que voltar a filmes como Lebenszeichen. O filme foi um teste da minha marginalidade." ¹

Eis que temos a primeira obra-prima de Werner Herzog, o filme que o tornou mundialmente conhecido (como diretor cult, claro).

Primeira das cinco parcerias entre Herzog e o ator Klaus Kinski, Aguirre, Der Zorn Gottes (Aguirre, A Cólera Dos Deuses) mistura ficção e historicidade para contar a malograda expedição de Gonzalo Pizarro (irmão de Francisco) em busca do mítico Eldorado, em 1560, na Amazônia Peruana. A continuidade da missão, rio adentro, é confiada a Dom Pedro de Ursua e Dom Lope de Aguirre; este acaba tomando o poder do grupo e lançando a todos numa espiral de caos e morte, até o final insanamente apoteótico (apoteoticamente insano).

Se eu, Aguirre, quiser que os pássaros caiam mortos das árvores, os pássaros cairão mortos das árvores. Eu sou a cólera dos deuses.” ²

A narrativa do filme, livremente inspirada na obra Relación Del Nuevo Descubrimiento Del Famoso Río Grande Que Descubrió Por Muy Gran Ventura El Capitán Francisco De Orellana, do missionário espanhol Frei Gaspar de Carvajal (1504–1584), traz dois pontos-chave da mitologia herzogiana: a natureza hostil e o fracasso humano.

Fui breve na descrição da história porque ela nem importa muito no final das contas: basta saber que é mais uma parábola sobre obsessão e frustração levada a cabo por um protagonista insano e deslocado, tentando inutilmente se debater contra a natureza e a Criação.

É a tal da ‘verdade extática’ de que Herzog tanto fala: em vez de um grande roteiro bem amarradinho, cenas épicas de lutas ou uma narrativa de grande acuidade histórica, o diretor se interessa por algo maior, mais profundo e intuitivo, um mergulho nos desvarios da humanidade que alimentam delírios grandiloquentes até que a existência as esmague implacavelmente.

O próprio diretor explica melhor: "A História está geralmente do lado dos vencedores, e Aguirre é um dos grandes perdedores da História. (...) A expedição de Aguirre é claramente fadada ao fracasso desde o início. Sabemos que isso - até mesmo antes de o filme começar - quando lemos que Eldorado é uma mera invenção dos índios. Então sabemos que o que essas pessoas estão buscando é praticamente a mecânica da derrota e da morte. Às vezes me parece que Aguirre está deliberadamente levando seus soldados para a destruição. É como uma tragédia grega, no final é óbvio que ele trouxe esses horrores sobre si mesmo. Aguirre se atreve a desafiar a natureza, de tal forma que a natureza, inevitavelmente, vai se vingar dele".³

Trabalhar com Marlon Brando devia ser um jardim da infância em comparação com Kinski.” 4

Assim acompanhamos essa expedição de puro delírio rumo ao nada. Ícaro, Prometeu, Terceira Margem do Rio, Coração das trevas... somam-se as loucuras da própria história, na natureza selvagem, do diretor obsessivo – aqui surge a lenda do realizador que põe em risco a própria vida e a de sua equipe, ameaça atores de morte, usa câmeras e animais roubados –, principalmente, de Klaus Kinski, que se agiganta neste filme, com seus olhos profundamente azuis, seu jeito esquizofrênico e seu feio rosto anguloso, tal como Fini Straubinger se impos em Land Des Schweigens Und Der Dunkelheit.

Kinski, com quem Herzog manteve a vida inteira uma relação de amor & ódio, se irritava com mosquitos, com a chuva, com a equipe, com os outros atores, gritava com todo mundo e exigia privilégios como água mineral, enquanto todos bebiam água da chuva, e ia dormir no hotel mais próximo da região (sim, era bem longe). Após uma das infindáveis discussões com o diretor (a quem chamava, pejorativamente, de ‘Diretor dos Anões’, por causa de Auch Zwerge Haben Klein Angefangen), Kinski arrumou suas coisas e disse que ia embora.

Herzog nos conta o que se seguiu: “Fui até ele calmamente e disse: ‘Você não pode fazer isso; Você não pode deixar o filme antes que ele esteja terminado. O filme é mais importante do que nossos sentimentos pessoais É mais importante até do que nossas vidas privadas. Não é aceitável que você faça isso’. Disse a ele que tinha um rifle e ele não chegaria à curva seguinte do rio antes que tivesse oito balas na cabeça; A nona seria pra mim. (...) Ele sabia que eu estava falando sério, e pelos dez dias restantes de filmagem ele foi muito doce e bem-comportado”. ³

Claro, o sujeito era uma completa pestilência e um pesadelo para se trabalhar junto, mas quem se importa? O importante são os filmes que fizemos juntos.5

Não deixe de ver e rever esse grande clássico do cinema. É o primeiro filme absolutamente obrigatório deste blog. Você vai presenciar o nascimento de dois mitos, um diretor e um ator, que cometerão os maiores absurdos nas duas décadas seguintes e terão seu nome inscrito em qualquer panteão artístico ‘badass’. Aparentemente, e só aparentemente, há menos questões profundíssimas do Ser envolvidas, mas é só porque a abordagem cinematográfica é mais convencional (para os padrões herzogianos)
. Pare o que estiver fazendo (incluindo ler este texto) agora veja este filme.


Curiosidades:

– O filme custou módicos US$ 370.000, sendo um terço disso o cachê de Klaus Kinski. Filmado em apenas cinco semanas (em ordem cronológica, o que explica muito do tom documental da história), sem nenhum storyboard. O segredo da economia foi uma cuidadosa e detalhada pré-produção de nove meses.

– Boa parte do roteiro foi escrita durante uma viagem ébria de 320 km num ônibus que levava o time de futebol de Herzog para uma partida em Viena (Áustria). Um dos jogadores bêbados teria inclusive vomitado no script.

– Entre as habituais cenas que não têm necessariamente a ver com o filme, mas que Herzog encontra pelo caminho e resolve filmar e colocar na película, temos uma adorável preguiça-bebê.

Aguirre... teve recepção fria na Alemanha, até por conta da pouca divulgação, mas tornou-se cult no resto do mundo, e até hoje é um de seus filmes mais conhecidos.

– Percebeu semelhanças entre Aguirre... e Apocalypse Now? Pois não é por acaso. Coppola admite: "Aguirre, com seu imaginário incrível, foi uma influência muito forte. Eu seria negligente se não mencionasse isso" 6. E dez anos depois, Herzog escreveria o roteiro de Fitzcarraldo em oito dias, na casa de Coppola em São Francisco.

– Dos incidentes causados por Kinski, dois foram mais graves: primeiro acertou com uma espada a cabeça de um companheiro de cena na balsa. E este só sobreviveu porque estava usando capacete. Depois, após um dia de filmagens, começou a atirar a esmo com uma espingarda Winchester, e acabou acertando o dedo de um figurante. A arma foi confiscada por Herzog, que a mantém guardada até hoje.


¹ ³ 4 5 HERZOG, Werner. Herzog On Herzog, de Paul Cronin. Faber & Faber. 2000
² Quote do filme