quarta-feira, 13 de agosto de 2014

(1979) Nosferatu


Alemanha (filmado em República Tcheca, na Holanda e no México) | 103min | 35 mm |cor
Roteiro: Werner Herzog, a partir do livro de Bram Stoker e do filme de FW Murnau
Produção e direção: Werner Herzog
Som: Walter Saxer
Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus
Fotografia: Jorg Schmidt-Reitwein
Música: Florian Fricke (Popol Vuh) e excertos Richard Wagner e Charles Gounod
Elenco: Klaus Kinski (Conde Drácula), Isabelle Adjani (Lucy Harker), Bruno Ganz (Jonathan Harker), Jaques Dufilho (capitão), Roland Topor (Renfield), Walter Ledengast (Van Helsing), Dan van Husen (guarda), Roger Berry Losch (primeiro marinheiro), Jan Groth (capitão), Carster Bodinus (Schrader), Martje Grohmann (Mina), Ryk de Gooyer (oficial), Clemens Scheitz (oficial de justiça), Lo van Hensbergen (inspetor), John Leddy (cocheiro), Margiet van Hartingsveld (empregada), Beverly Walker (madre-superiora)


[Não vou fazer comparações com a obra-prima de Murnau aqui, pois sairia muito do escopo deste blog, além de demandar muito tempo para quem ainda tem dezenas de filmes para percorrer. A versão de Herzog tem força e personalidades suficientes para ser analisada por si só, além de não ser tão fiel nem ao filme-homenageado (a despeito de haver cenas iguais, como homenagem), nem ao livro original.]

Uma vez que todo mundo conhece a história original (pelo menos é isso que Herzog supõe) – o jovem Jonathan Harker vai à Transilvânia fechar o contrato da venda de uma casa para o tal Conde Drácula, e chegando lá em seu castelo percebe que ele é um tipo um tanto excêntrico, e que talvez haja bastante encrenca naquele soturno castelo, inclusive para a noiva de Jonathan, e aí sobram mordidas no pescoço de quase todo mundo –, o diretor não perde tempo com apresentações ou construção de personagens.

Nas palavras do alemão: “Meu filme foi totalmente baseado no Nosferatu original, ainda que eu quisesse injetar um espírito diferente nele. No filme de Murnau a criatura é assustadora porque ele não possui alma e parece com um inseto. Mas no vampiro de Kiski você tem a verdadeira angústia existencial humana. Eu tentei ‘humanizá-lo’. Eu quis dotá-lo de sofrimento humano e solidão, com um verdadeiro anseio por amor, e, mais importante, uma característica essencial do ser humano: a mortalidade.” ¹

Assim o filme, de subtítulo Phantom Der Nacht (Fantasma Da Noite), fica bastante livre pra exercícios estilísticos, o que faz deste um dos visualmente mais belos de toda a filmografia herzogiana, num grande trabalho do diretor de fotografia Jörg Schmidt-Reitwein.

Devo mencionar, aliás, que este é, visualmente, o filme mais belo de Werner Herzog. Além do admirável trabalho de fotografia (muito bem ornado pela trilha do Popol Vuh), Nosferatu é a obra em que o olhar genial do diretor, até então sempre direcionado a manifestações mais intuitivas, livres, até caóticas, dá lugar a um grande apuro técnico, em cenas cuidadosamente construídas. 


Belíssima fotografia

Cada sequência merece ter o olhar repousado sobre ela, é um filme para ver e rever de tempos em tempos, com diferentes climas e humores, já que é uma obra de arte bastante sensorial, quase mística. As paisagens, como de praxe na mitologia herzogiana, são personagens importantes, sempre dando o clima preciso de morbidez e melancolia à narrativa.
Todos os personagens parecem perdidos, especialmente o trio principal: Jonathan e Lucy, um casal visivelmente asséptico, infeliz em seu relacionamento idealizado, frio; e Drácula, solitário, melancólico, frustrado. Até Van Helsing, nesta versão, é um personagem fraco, quase patético.

Nina e Jonathan: casal amargurado

Deve-se notar que o elemento água é usado frequentemente no filme, para simbolizar o destino, para o bem e para o mal: Jonathan fica feliz de sair de sua cidade, onde as águas retornam sempre ao mesmo lugar, e ir a Transilvânia; Lucy diz que todos estão condenados porque os rios continuam correndo sem eles, e a morte é a única certeza.

O triângulo (des)amoroso do filme, entre sonho e realidade, amor e morte,  se origina da falta de paixão, da impossibilidade de mudar esse curso d’água que é o destino. Todos estão nas mãos de Drácula (até ele mesmo, em sua solitude), que é a escuridão, o mal, a decrepitude, e por que não, a monotonia do não-ser.

Vampiro amargurado

Como em tantos filmes do diretor, trata-se da inútil luta do ser humano consigo mesmo e com a existência. Nosferatu é obviamente um protagonista herzogiano de tão inadequado, deslocado. E o casal, cada um a seu modo, traz essa desgraça para si, para fazer emergir essa infelicidade, esse horror instintivo que ambos trazem consigo.

Ambos abraçam a destruição ao mesmo tempo em que tentam evitá-la, e o destino do vampiro no final das contas é tão-somente a afirmação de que não se pode enganar a morte: Nosferatu perece, mas ainda vive, em outro corpo, em outra forma.

Festim diabólico

Não há exatamente redenção, são todos incapazes de se realizar ou realizar algo. Do início, com as múmias que servem de memento mori e o voo lento e silencioso do morcego, até o final, em que todos se entregam – Jonathan à loucura e perdição, Lucy ao vampiro e Drácula à destruição.

No final, aliás, Nosferatu não exibe qualquer mensagem de “fim” ou coisa parecida (nem mesmo os créditos), porque dessa forma, para o diretor (como ele diz nos comentários do DVD), "o filme iria continuar dentro de nós, do público".

E continua. Os ratos estão por toda parte, espalhando a pestilência, e todos cantam e se embriagam, em desespero, porque o Sísifo herzogiano só pode fingir que é feliz.

Como tão bem resumiu o crítico norte-americano de cinema Roger Ebert (1942–2013): “’Nosferatu’ não pode ser confinado à categoria de ‘filme de horror’. É sobre sentir medo, e sobre o quão facilmente os incautos podem mergulhar no Mal”. ²


Curiosidades:

Nosferatu foi um dos cinco (!) filmes de vampiro lançados em 1979 – os outros foram Dracula (de John Badham, com Frank Langela), Love At First Bite (comédia de Stan Dragoti), Nocturna (de Harry Hurwitz, com John Carradine), Graf Dracula [Beißt Jetzt] In Oberbayern (de Carl Schenkel ), Thirst (de Ron Hardy) e Salem's Lot (de Tobe Hopper, baseado em história de Stephen King);

– o filme recebeu o Urso de Prata de melhor figurino em Berlim e o prêmio de melhor filme estrangeiro da National Board of Review (ambos em 1979), enquanto, no mesmo ano, Klaus Kinski recebeu o prêmio de melhor ator principal do German Film Awards, e, em 1980, o Pelicano de Ouro do Festival de Cinema de Cartagena por sua atuação;

– as incrivelmente lentas (e difíceis) sequências do morcego voando foram retiradas de um documentário científico;

– as múmias do início do filme são reais, compradas pelo diretor de uma exposição no cemitério da cidade mexicana de Guajuanato, onde houve uma epidemia de cólera em 1833, que vitimou essas pessoas;

– Herzog foi acusado de crueldade com animais por ativistas, pois os 11 mil (!) ratos brancos foram importados da Hungria em condições tão deploráveis que começaram a devorar uns aos outros antes de chegar a Holanda, e os sobreviventes foram pintados de cinza para as filmagens;

– como a obra de Bram Stoker já havia caído em domínio público, Herzog resolveu restaurar os nomes originais do romance, que não puderam ser usados por Murnau (Drácula, por exemplo, era Orlok);

– os personagens Mina e Lucy têm seus papeis invertidos em relação ao livro de Bram Stoker;

– Martje Grohmann, aliás, que interpretou Mina, era esposa de Herzog à época (foram casados de 1967 a 1987), e também trabalhou em Aguirre, Der Zorn Gottes, como assistente de produção, e em Lebenszeichen, como assistente de direção, além de ter traduzido para o inglês o roteiro de Invincible (2001);

– o filho de Herzog e Martje, Rudolph, nascido em 1973, foi roteirista e produtor executivo de The White Diamond (2004), roteirista de Happy People: A Year in the Taiga (2010), diretor-assistente em Glocken Aus Der Tiefe (1993), Gesualdo: Death For Five Voices (1995) e Invincible (2001), além de produtor-assistente em Little Dieter Needs To Fly (1997).

– ao contrário das aziagas jornadas com Klaus Kinski em Aguirre, Der Zorn Gottes e Fitzcarraldo (1982), o inquieto ator, segundo Herzog, “amou o trabalho e estava feliz o tempo todo, ainda que ele fizesse uma birra acada dois dias”; ³

– a maquiagem de Klaus Kinski levava quatro horas para ficar pronta, todos os dias;

– Walter Ledengast, que interpreta Van Helsing, atuou como o professor Daumer em Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle

– outras pontas notáveis são do próprio Herzog, como um dos carregadores do caixão com os ratos, e de Clemens Scheitz, do amigo do protagonista de Stroszek (e que também foi o mordomo Adalbert em Herz Aus Glas), como oficial de justiça;

– os ciganos do vilarejo são “de verdade”, do leste da Eslováquia, e falam entre si no dialeto romani;

– o designer de produção Henning von Gierke, também um chef talentoso que gostava de cozinhar para a equipe, preparou ele mesmo a comida para a cena do café da manhã;

– a equipe inteira de filmagem era composta por 16 pessoas, o dobro de Aguirre, Der Zorn Gottes, e filmou por 7 semanas, após 4–5meses de pré-produção;

– os executivos da Fox, que se interessaram por coproduzir Nosferatu, se espantaram quando viram que o orçamento para o roteiro do filme era de apenas US$ 2 – Herzog afirmou que só tinha precisado de lápis e papel para fazê-lo.


¹ ³ HERZOG, Werner. In: Herzog On Herzog, de Paul Cronin. Editora Faber & Faber, 2001.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

(1977) La Soufrière

Alemanha (Guadalupe) | 31min | 16 mm |cor
Roteiro, produção, som e direção: Werner Herzog
Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus
Fotografia: Jorg Schmidt-Reitwein
Música: excertos de Rachmaninnof, Mendelsshon, Brahms e Wagner
Elenco: Werner Herzog (narrador)



De alguma maneira, escondida no filme, há também a grande questão do realismo: ‘Faz sentido ir para  tal lugar e fazer um filme em que o perigo é tão iminente, ou seria melhor ficar afastado sem fazer o filme?’ Neste sentido, para mim é um filme muito importante, e na narração falo muito claramente do absurdo da situação, da catástrofe inevitável que nunca aconteceu.” ¹

Um filme, de certa forma fracassado, pode ser bom mesmo assim? Existe lógica em fazer um documentário que provavelmente só estará completo se você morrer enquanto o fizer (e de todo modo, se perdendo também o trabalho feito)?

Após as dificuldades de Aguirre, Der Zorn Gottes, e antes da insanidade completa de Fitzcarraldo (1982), La Soufrièreé o documentário que fez o nome de Werner Herzog como o proeminente ‘risk-taking wildman’ do cinema” ², como disse o jornalista norte-americano Luke Dormehl.

Com o subtítulo Warten Auf Eine Unausweichliche Katastrophe (“Esperando Por Um Desastre Inevitável”), o filme, feito para a televisão alemã, começa com imagens da natureza à Herz Aus Glas – o vulcão expelindo seus vapores mortais de enxofre –, sob a voz reconfortante do narrador-diretor, que explica suscintamente todo o mote do filme: em 1976, o vulcão La Soufrière (‘O Sulfuroso’), na Ilha Basse-Tere, em Guadalupe, estava prestes a entrar em erupção, e a população havia sido evacuada; ao saber que um homem havia se recusado a partir, Werner Herzog decidiu ir até lá documentar essa história, acompanhado por seu diretor de fotografia Jorg Schmidt-Reitwein e pelo cameraman Ed Lachman.
Os vapores sulfurosos de La Soufrière

Sob o fundo melancólico em tons menores do 'adagio sostenuto' do Concerto Para Piano Nº 2 de Rachmaninoff (aliás, uma de minhas peças clássicas favoritas), que parece, adequadamente, um requiem instrumental, o diretor alemão captura momentos estranhamente poéticos de abandono e vazio nas cenas da cidade vazia. São imagens de uma civilização que deu errado (tema bastante caro a Herzog): semáforos inúteis, cães famintos morrendo por falta de lixo, e tornando-se, eles mesmos, carniça, além de serpentes afogadas na praia enquanto fugiam da desgraça iminente.

Como afirma Luke Dormehl, “É a perfeita metáfora para a visão do diretor da hostilidade caótica da natureza”. ² Surge na tela a recordação de um lugar que já não existe mais, mas que, no entanto, ainda está ali, evocando a Existência tanto antes quanto depois da humanidade, como se a própria noção de vida animal já fosse uma corrupção das paisagens naturais. É mais uma prova herzogiana de que a Criação deu errado e de que tudo seria melhor na quietude do não-ser.

Nas palavras do estudioso de cinema alemão Brad Prager: “Aqui, assim como em Fata Morgana, as imagens lembram as de um filme de ficção científica. É uma visão de distopia, uma civilização que sobreviveu a seus habitantes. Parece que alguma estranha praga removeu as pessoas, mas não as construções. (…) A indiferença dessas ruas à presença de Herzog rivaliza com a indiferença do vulcão para com os humanos em sua base”. ³
A melancolia da cidade abandonada (com o vulcão ao fundo)

Fugindo das nuvens sulfurosas mortíferas que descem da montanha, Herzog e seus dois escudeiros chegam próximos à borda do vulcão, onde filmam enquanto o diretor narra, sob uma atmosfera de intenso pesar, uma terrível erupção em 1902, em uma ilha vizinha, que vitimou centenas de milhares de pessoas, sem falar nos outros animais, e da qual só escapou um preso de alta periculosidade, porque estava isolado em uma solitária.

Enquanto refletimos sobre o poder destruidor da natureza e a inevitabilidade da entropia e do caos, mesmerizados pelas tomadas aéreas das proximidades do vulcão, Herzog chega até o homem que motivou o curta-metragem. Ele e mais dois repousam tranquilamente, à espera do fim.

O que se segue é uma das sequências mais poderosas já filmadas: “Assim que ouvi falar sobre a iminente erupção vulcânica, que a ilha em Guadalupe havia sido evacuado e que um habitante se recusava a partir, eu soube que eu queria ir até lá falar com ele e descobrir que tipo de relação com a morte ele tinha4, afirma o diretor.

Muito pobres, até para os padrões da ilha, eles permanecem lá simplesmente porque não têm aonde ir, onde ficar, como se estabelecer. Vagar por outras plagas e ter que voltar depois? Eles preferem permanecer. É só mais uma atitude de quem sempre esteve à margem da sociedade. As pessoas têm onde ficar, eles não. As pessoas têm como se manter em outro lugar, eles não. Elas vão, eles ficam.

Sem qualquer rancor ou ressentimento, eles entregarm o destino nas mãos da Morte – se ela quiser, virá buscá-los; é uma grande maturidade, tranquila, diante do (então) inevitável fim. Deus é que decide, que sabe, e se ele quiser que os três morram ou viva, não há nada que se possa fazer. Assim eles seguem no remanso aparentemente derradeiro. São autênticos outsiders herzogianos, acorrentados inexoravelmente aos seus destinos.

Herzog ressalta a força dessa sequência: “Primeiramente, este filme tem uma metafísica da morte: ele se direciona à indiferença que alguém pode ter quanto à morte ao encarar forças grandes demais para serem compreendidas. (…) Aqui, assim como em muitos trabalhos de Herzog, a morte individual é tão fascinante quando o próprio apocalipse, ainda que neste caso o apocalipse não chegue”. 5

A Morte sempre está à espreita, todo dia é dia de viver e morrer, logo não há poque temer o fado. Eles não possuem quase nada além da própria vida, de modo que preferem vive-la ali mesmo, de qualquer form, até o fim. Estão acostumados aos desmandos da existência.


A assustadora e lúcida tranquilidade de quem está para morrer

Porém, por algum erro na previsão dos cientistas, o vulcão simplesmente não explodiu. Foi a ‘catástrofe inevitável’ que não houve. De algum modo, o próprio documentário permanece suspenso nessa inevitabilidade que foi evitada por ora, e a voz visivelmente decepcionada, algo envergonhada, do diretor-narrador, ilustra a atitude de quem não saiu da ilha: a morte está sempre logo ali; pode não vir hoje, nem amanhã, pode vir daqui a pouco, e no final tanto faz. As marés do tempo seguem, inexoráveis e gratuitas, nos levando a reboque. O filme é mais um retrato da existência sem sentido, da civilização sem rumo, da estupidez de tudo que somos.

Essa ambiguidade de partir-ficar, viver-morrer, vencer-fracassar, persegue o próprio diretor na conclusão do documentário: “Há certamente um elemento de autoironia no final do filme. Tudo que parece tão perigoso e definitivamente condenado termina na mais completa banalidade. Isso é bom, tive que aceitar que foi assim, e é claro que, em retrospecto, tenho que agradecer a Deus de joelhos que não foi de outra maneira. É um bom resultado que o filme tenha perdido seu clímax violento. Seria realmente ridículo demais ser feito em pedaços, com dois colegas, por um vulcão, enquanto fazia um filme.6

É uma experiência cinematográfica e existencial imperdível. Mesmo que você não seja aficionado por Herzog, recomendo que veja este pequeno documentário; é mais uma joia herzogiana que te fará pensar um bocado sobre a própria vida e tudo que o rodeia por aí. Assista a este filme, sem falta.


Curiosidades:

– em 1978, o filme recebeu o prêmio de melhor cultra-metragem no German Film Awards, e Herzog foi eleito melhor diretor, assim como no Cracow Film Festival;

– após aceitar que Herzog fizesse o documentário (“Apenas vá embora logo e faça”, quando indagado por ele sobre o contrato para o trabalho, o executivo de televisão Manfred Konzelmann (com quem o alemão já havia trabalhado em Die Große Ekstase Des Bildschnitzers Steiner), simplesmente respondeu: Volte vivo e nós fazemos o contrato”;

– o diretor de fotografia Jorg Schmidt-Reitwein, então já um colaborador de longa data, topou a empreitada imediatamente, mas Ed Lachman ainda perguntou o que aconteceria se a ilha explodisse, ao que Herzog respondeu “Ed, vamos para os ares”, com uma calma absurda que convenceu o cameraman e aceitar o trabalho.


¹ PAGANELLI, Grazia. Sinais De Vida: Werner Herzog E O Cinema (Segni Di Vita: Werner Herzog E Il Cinema, 2008). Editora Indie Lisboa, 2009.
² ³ DORMEHL, Luke. A Journey Through Documentary Film. Oldcastle Books, 2012.
4 PRAGER, Brad. The Cinema Of Werner Herzog: Aesthetic Ecstasy And Truth. Wallflower Press, 2007.
5 6 HERZOG, Werner. In: Herzog On Herzog, de Paul Cronin. Editora Faber & Faber, 2001.

terça-feira, 27 de maio de 2014

(1977) Stroszek

Alemanha (Berlim, Nova York, Wisconsin, Carolina do Norte) | 108min | 35 mm |cor
Roteiro, produção e direção: Werner Herzog
Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus
Fotografia: Thomas Mauch
Som: Haymo Henry Heyder
Música: canções de Chet Atkins, Tom Paxton, Sony Terry e Beethoven
Elenco: Bruno S (Stroszek), Eva Mattes (Eva), Clemens Scheitz (Scheitz), Wilhelm von Homburg, Burkhard Driest e Pitt Bedewitz (cafetões), Clayton Slzapinski (mecânico), Ely Rodriguez (indiano), Alfred Edel (diretor da cadeia), Scott McKain (bancário), Ralph Wade (leiloeiro), Vaclav Cojta (médico), Michael Gahr e Yücsel Topeugürler (presos)


Às vezes, fazer filmes é somente estilizar, mas em Stroszek estávamos lidando com sofrimento humano de verdade.” ¹

Herzog não exagerou na colocação acima: Stroszek é um de seus filmes mais brutais, talvez comparável somente a Auch Zwerge Haben Klein Angefangen em matéria de desolação.

Além disso, está perfeitamente inserido no contexto cinematográfico norte-americano dessa época de ressaca do flower power (que não deu em nada) e pessimismo por causa do Vietnã; essa safra de filmes que vai de Midnight Cowboy (1969) a Taxi Driver (1976), passando por Scarecrow, Serpico, Dog Day Afternoon e Alice Doesn’t Live Here Anymore, entre tantos outros, em que os sonhos individuais são sempre esmagados pela existência em coletividade.

De uma prisão para outra

Talento incompreendido

Inspirado em muitos aspectos da vida de Bruno S (de Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle), o filme conta a história de Bruno Stroszek, músico de rua alcoólatra e com problemas mentais, recém-saído da prisão (não fica claro o crime cometido), que, cansado da vida difícil em Berlim, reúne seu amigo esquisito Clemens Scheitz e sua protegida, a prostituta Eva (frequente vítima de maus-tratos por parte de seus cafetões) e parte para a América (mais especificamente para Wisconsin), em busca de uma vida melhor.

Para o especialista em cinema alemão Brad Prager, "há uma boa quantidade de crueza realista urbana nas primeiras partes do filme, o que é pouco usual para Herzog”. ² E, dado o contexto da época e o tom do filme, não precisa pensar muito para saber que essa jornada está condenada ao fracasso desde o início: assim como em Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle, o personagem de Bruno S faz o percurso de uma prisão para outra.

Como notou o crítico brasileiro de cinema João Carlos Sampaio (1970–2014): “Interessante confrontar o tratamento cordial, honesto e zeloso que Bruno Stroszek experimentava no manicômio judiciário com a vida de homem livre na América, onde os que o cercam parecem bem menos amistosos”. ³

Na prisão, Stroszek tinha amigos (os companheiros de cela) e era bem tratado pelos funcionários, que também se importavam com ele. Lá fora, tanto em Berlim quanto nos EUA, o mundo é muito mais hostil: ele sai de um lugar onde toca e canta para ganhar dinheiro algum e ser maltratado pelos cafetões de sua amiga Eva (que logo se revelaria interesseira e ingrata), e mesmo as pessoas que o empregam na América zombam de sua condição mental.

O trio (aparentemente) inseparável

O crítico de cinema norte-americano Jonathan Rommey afirma que “certamente é um dos dramas mais frios já realizados sobre os sonhos europeus do que seja a América”. 4  E não significa que o filme critique os EUA ou o “Sonho Americano”. O fracasso seria inevitável em qualquer lugar, e a fria e cinzenta e sem-graça Wisconsin apenas serve de (perfeita) moldura para essa inviabilidade dos sonhos do protagonista.

Ele não entende direito o inglês, o que é mais um fato de isolamento, e não se anima com o trabalho. Enquanto isso, seu amigo se aliena com pesquisas sobre magnetismo animal (?) e Eva volta a se prostituir entre os intervalos de seu emprego de garçonete, e vai se afastando de Stroszek.

O representante do banco os visita todo dia, avisando que vão tomar de volta a casa-trêiler deles por falta de pagamento, e nem quando isso acontece Stroszek parece entender direito o que está acontecendo, pois passa os dias semibêbado no sofá.

Sem ter onde morar, com os bens leiloados, abandonado por Eva (que foge com caminhoneiros). Stroszek e Scheitz resolvem praticar um assalto para obter algum dinheiro. Sabemos que vai dar errado, só precisamos ver para saber como. E o desfecho, após a trapalhada de o banco estar fechado e eles acabarem assaltando uma pequena barbearia, é a prisão ridícula de Scheitz. Stroszek está novamente sozinho.

Em busca do sonho

Vivendo o sonho

Amargando o despertar

E o desfecho – quando Stroszek parte para um ultimo ataque contra toda a existência –, que inclui uma caminhonete girando em círculos (como em Auch Zwerge Haben Klein Angefangen), um sistema de teleférico, uma espingarda e um parque de diversões vagabundo, é “um dos finais mais selvagens e sem perdão jamais colocados em filme”, 5 segundo Jonathan Rommey, que afirma que o final, com a infame cena da galinha (galináceos são obsessão do diretor desde Spiel Im Sand) girando em círculos, inexoravelmente, é “uma das imagens da condição humana – obsessiva e fora de controle – mais insuportavelmente cruéis que um diretor já apresentou ao público”. 6

O especialista em cinema alemão Rembert Hüser acrescenta: “A repetição é o que faz da sequência [final] em Stroszek tão dura de enfrentar. A galinha que Herzog encontrou não promete um novo começo, não promete encerramento. Ela simplesmente não para. Recusa-se a partir. É demais para ter alguma esperança”. 7

O crítico norte-americano de cinema Roger Ebert (1942–2013) conclui: “A galinha é uma ‘grande metáfora’, ele [Herzog] diz, sem saber ao certo para o quê. Minha teoria: uma força que não podemos compreender coloca algum dinheiro no ‘slot’, e nós dançamos até que o crédito acabe”. 8

A infame galinha giratória

Tal como o bebê prematuro tentando se agarrar a alguma coisa no primeiro terço do filme, Stroszek pensa – quase sempre em terceira pessoa, numa clara dissociação do sujeito – "Agora Bruno está entrando em liberdade", olhando o mundo por um vidro distorcido, tal como a metáfora do coração de vidro em Herz Aus Glas, pensando "Quando crescerei o bastante para poder ser amado?". 

Mas o fato é não há redenção possível, não existe lugar para ele em lugar algum. Ele está irremediavelmente condenado, preso na existência circular animalesca, inútil, sem qualquer sentido, mais uma coisa que deu errada no imenso universo de coisas que jamais dão certo de Werner Herzog.

Afinal, como o próprio diretor afirma, “Stroszek é sobre sonhos despedaçados9. E também é mais um filme maravilhosamente amargo e desolador, intenso e desafiador, profundíssimo em sua aridez desgarrada.

E, apesar de tudo isso, não é um filme ‘difícil’; a estrutura é convencional, às vezes poderia passar por um filme norte-americano da época, e não carece de ritmo, apesar da estrutura um tanto episódica e da diminuição da intensidade no segundo terço da história. Os cento e oito minutos de filme passarão voando, e te deixarão com um indisfarçável incômodo, um grande vazio.

Mais uma obra-prima imortal. Pare o que estiver fazendo e veja Stroszek agora mesmo (tem até em DVD no Brasil).


Curiosidades:

– O filme recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival das Nações de Taormina (Itália) em 1977 e o Prêmio de melhor filme no German Film Critics Award em 1978;

– Stroszek, que também batiza o protagonista de Lebenszeichen, é o nome de um colega dos tempos de faculdade de Herzog, que uma vez lhe passou cola em uma prova, e por isso foi ‘homenageado’ nessas duas ocasiões;

Stroszek foi criado de improviso (normal no universo herzogiano), para compensar o fato de que Bruno S fora preterido para o papel principal de Woyzeck (que seria filmado em 1979), em favor de Klaus Kinski;

– Inclusive o título Stroszek foi escolhido por ser semelhante a Woyzeck – tudo para agradar Bruno S;

Bruno S, digníssimo até o fim

– O roteiro foi escrito em 4 dias, com diversos traços biográficos de Bruno S, durante uma viagem do diretor para um vilarejo cinzento em Wisconsin, onde teria vivido (e matado) o célebre serial killer Ed Gein;

- O filme é dedicado ao documentarista norte-americano Errol Morris (1948–) por ambos estarem à época com planos de fazer um documentário sobre Ed Gein, o que nunca se concretizou;

– Com exceção do trio principal (Stroszek, Eva e Scheitz), todo o elenco é de não-atores;

– Quando, ao escolher aleatoriamente Clemens Scheitz em um catálogo de figurantes, Herzog foi avisado de que aquele senhor não estava mais muito bem da cabeça, teve certeza de que ele era a pessoa certa para o papel;

– Segundo Herzog, ao contrário de seu personagem, Bruno S adorou a América (especialmente Nova York) – e Clemens Scheitz não gostou muito de Bruno, pois achava que ele cheirava mal;

- O apartamento era realmente de Bruno na vida real, bem como o piano (comprado com o dinheiro de Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle), que ele chamava de ‘amigo negro’;

– Algumas das canções que Stroszek toca e canta no filme são de autoria do próprio Bruno S;

– Herzog diz evitar até hoje rever o filme, pois muitas de suas cenas dolorosas (como a do protagonista sendo espancado pelos cafetões de Eva) refletem o tipo de sofrimento pelo qual Bruno S realmente passou em sua vida;

– Diversas cenas foram improvisadas de acordo com as memórias de Bruno S, como a sequência em que Stroszek conta a Eva sobre sua infância de solidão e dor no reformatório, especialmente quando ele urinou em sua cama e foi forçado a segurar os lençóis molhados por horas, até que secassem – ou apanharia;

Stroszek carrega a infâmia de ser o filme que Ian Curtis (Joy Division), viu sozinho em casa na noite em que cometeu suicídio, em 1980;

– O disco póstumo Still, do Joy Division, de 1981, carrega muitas referências ao filme, especialmente à cena final, da galinha;

– Entre as bandas que homenageiam o filme, temos o depressivo gothic rock italiano Stroszek (projeto de membros do Frostmoon Eclipse) e o melancólico folk uruguaio Bruno Stroszek;

– Um trecho de diálogo do filme foi usado pelo duo eletrônico experimental norte-americano Ratatat na canção Drugs, de 2010 (álbum LP4), e outra dupla do mesmo estilo, o alemão Die Vögel (“Os Pássaros”, referência a Hitchcock), usou cenas de Stroszek no clipe da faixa-título do EP The Chicken, de 2012;

– A famosa "cena final da galinha" de Stroszek é homenageada quase literalmente n'Os Aneis De Saturno (1995), do escritor alemão WG Sebald (1944–2001);

- O leiloeiro dos bens de Stroszek é um dos competidores de How Much Wood Would A Woodchuck Chuck;

– A equipe inteira desgostou tanto da cena final com a galinha que Herzog teve que fazê-la inteira sozinho, e até hoje ele a considera sua obra-prima;

– Beate Mainka-Jellinghaus, montadora de longa data dos filmes herzogianos (e conhecida por não gostar deles), achou o filme tão incômodo e desagradável que pensou em desistir do trabalho assim que começou a vê-lo pela primeira vez, mas foi demovida da ideia pelo diretor, que a ameaçou com uma pá.


¹ 9 HERZOG, Werner. Herzog On Herzog, de Paul Cronin. Editora Faber & Faber, 2001.
² PRAGER, Brad. The Cinema Of Werner Herzog: Aesthetic Ecstasy And Truth. Wallflower Press, 2007.
³ SAMPAIO, João Carlos. Stroszek Ou A Busca Vã Dos Desajustados. In: Os Filmes Que Sonhamos, de Frederico Machado. Lume Filmes, 2010.
4 5 6 ROMMEY, Jonathan. In: 1001 Filmes Para Ver Antes De Morrer (1001 Movies You Must See Before You Die), de Steven Jay Schneider. Editora Sextante, 2008.
7 HÜSER, Rembert. In: A Companion To Werner Herzog, de Brad Prager. John Wiley & Sons, 2012.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

(1976) Mit Mir Will Keiner Spielen


Alemanha (Munique) | 14min | 16 mm | cor
Roteiro, produção e direção: Werner Herzog
Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus
Fotografia: Jörg Schmidt-Reitwein
Som: Haymo Henry Heyder
Elenco: não creditado


Tentei descobrir como crianças de cinco ou seis anos percebem as coisas.” ¹

Feito sob encomenda para o Institut fur Film und Bild in Wissechaft um Unterricht (Instituto para o Cinema Científico e Didático), este adorável curta-metragem (cujo título significa "Ninguém quer brincar comigo") gira em torno de crianças da pré-escola (que, aliás, atuam com muita naturalidade), e seu roteiro foi escrito com base em experiências que os próprios atores-mirins contaram ao diretor.

Aparentemente é uma tentativa de campanha para que as crianças sejam mais sociáveis e compreensivas inclusive com os coleguinhas que acham “estranhos”. Para o estudioso de cinema alemão Brad Prager, no entanto, “em sua essência, esse filme é mais sobre a virtude de compartilhar”. ²

A história é bem simples: Martin é um menino que fica isolado do resto da turma, sozinho no canto da sala, porque ninguém quer brincar com ele. As outras crianças comentam entre si que ele é sujo, usa roupas velhas, mora numa casa feia, não tem o que comer (só come pipoca), e por isso o rejeitam.

Antes só...

Com algum esforço, Martin convence uma colega de sala, Nicole, a ir até a casa dele, para ver seu corvo falante de estimação. E então conhecemos seu corvo, sua casa, e descobrimos o porquê de o garoto parecer meio abandonado.

Daí o filme alterna momentos muito bonitos, como a alegria do saltitante Martin por finalmente ter uma amizade (ele até dá seu corvo de presente à menina), e a descoberta desse sentimento por parte de Nicole (“Esse idiota é meu amigo!”), com outros mais melancólicos, quando conhecemos a dura realidade familiar do garoto. E o final, apesar de tudo, é feliz e tocante, com direito à reconciliação com a turma e a um par de porquinhos-da-índia.
...depois bem acompanhado.

Não tem cara de filme do Herzog, eu sei. É bem mais singelo, delicado, ingênuo mesmo, do que a filmografia costumeira do diretor. Afinal, sabemos que o alemão não costuma se envolver muito nos projetos que faz sob encomenda.

Também não sei o que o tal Institut fur Film und Bild in Wissechaft um Unterricht tinha na cabeça quando chamou Werner Herzog para fazer um filme infantil – sim, pois o público-alvo, não se esqueçam, são crianças da idade de Martin e Nicole.

O resultado, até pelo aparente pouco interesse do diretor (não duvido de que ele nem se lembre deste Mit Mir Will Keiner Spielen), é um filme tecnicamente cru (parece um documentário) e de resolução final um tanto corrida (até pelo curto tempo de projeção).

Mesmo assim, recomendo vê-lo, até porque é bem curto. E, de certa forma, temos, em formato mirim, um autêntico personagem hergoziano em Martim, inadequado, desolado, solitário, um tanto esquisito. Não é uma ruptura em sua obra.

E vale o ensinamento que o filme traz: 

Não existem crianças-problema, apenas pais-problema.” ³


Curiosidade:

- o corvo da história é uma óbvia referência ao animal que acompanhava a solitária infância do protagonista de Die Große Ekstase Des Bildschnitzers Steiner.


¹ PAGANELLI, Grazia. Sinais De Vida: Werner Herzog E O Cinema (Segni Di Vita: Werner Herzog E Il Cinema, 2008). Editora Indie Lisboa, 2009.
² PRAGER, Brad. The Cinema Of Werner Herzog: Aesthetic Ecstasy And Truth. Wallflower Press, 2007.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

(1976) How Much Wood Would A Woodchuck Chuck

Alemanha (Pensilvânia, EUA) | 45min | 16 mm |cor
Roteiro, produção, som e direção: Werner Herzog
Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus
Fotografia: Thomas Mauch
Som: Walter Saxer
Elenco: Steve Liptay, Ralph Wade, Alan Ball, Abe Diffenbach outros participantes do campeonato mundial de pregoeiros dos leilões de gado

 

Eu estava fascinado pelos pregoeiros de leilão e sempre tive o sentimento de que sua incrível linguagem era a real poesia do capitalismo. Todo sistema desenvolve seu próprio tipo de linguagem extrema, como os cânticos rituais da Igreja Ortodoxa, e há algo definitivo e absoluto na linguagem que os leiloeiros usam. Depois daquilo, até onde dá para ir? É ao mesmo tempo assustador e belo; há uma verdadeira musicalidade na entrega do discurso, no senso de ritmo que essas pessoas têm. É quase como um encanamento ritual.” ¹

Feito para a televisão alemã, How Much Wood Would A Woodchuck Chuck (trava-línguas usado por um dos competidores, e que significa algo como “Quanta madeira morderia uma marmota”), cujo subtítulo é Beobachtungen Zu Einer Neuen Sprache (“Observações sobre uma nova linguagem”) é um documentário que mostra o 13º Campeonato Mundial dos Leiloeiros de Gado, realizado em 1975, em Fort Collins, no Colorado.

O competidor

Todo mundo quer ser especial, diferente, melhor em alguma coisa, admirado. E esses homens querem ser os melhores em narrar leilões muito, muito rápido. Tão rápido que mal dá para distinguir as palavras, é mais o som de um berimbau sendo tocado. A linguagem se dissolve em figuras, cadências e gestos quase imperceptíveis entre compradores e vendedores.

Herzog está tão interessado, mais uma vez, nos limites da linguagem – no caso, uma linguagem criada por um sistema econômico –, que nem se dá ao trabalho de dizer os nomes dos competidores ou contextualizá-los: seus depoimentos surgem e se vão todos iguais, tolos e vazios, sem qualquer interferência do diretor. Aliás, só sabemos o nome do vencedor porque este é anunciado no sistema de som do evento.

Em suas palavras: “Meu sonho desde então tem sido voltar no tempo e fazer uma versão de Hamlet em menos de quinze minutos. Todos os participantes do campeonato mundial de leiloeiros recitando Shakespeare. Isso seria grande poesia.” ²

Enquanto isso, após cenas bucólicas sob trilha folk, conhecemos os amishes da região, protestantes conhecidos por renunciar à modernidade: evitam usar eletricidade, têm grande autonomia de subsistência (não só alimentícia), mantém escolas próprias, fazem as próprias roupas tudo para não depender de “gente de fora”. Eles, que sequer têm a expressão “campeonato mundial” no vocabulário, aparentemente estranham a movimentação dos vizinhos leiloeiros-competidores, mas, mesmo assim, oferecem lanches e doces a eles.

O amish

E logo vemos que alguns amishes também participam dos leilões – ou seja, aparentemente é inevitável a cooptação/assimilação do indivíduo social pelo sistema capitalista, mesmo nessa faceta mais estúpida. Nesse caso, são duas seitas, ambas cheias de hermetismos e estranhezas, alienações e dogmas, se encontrando numa área rural dos EUA.

[Talvez, no fundo, os amishes também queiram ser diferentes e especiais, pela via da renúncia à grande população, ou os amishes que vão ao leilão queiram fazer parte daquela outra exclusividade dentro da exclusividade deles, mas o filme não entra nesse mérito, é apenas especulação minha.]

Segundo o estudioso de cinema alemão John E. Davidson, “as simples escolhas de Herzog em filmar primariamente vários competidores através do dia permitem que o espectador desenvolva um senso generalizado de ‘vencedores’ – os três melhores (que conhecemos no início do filme) são uma extensão deslocada disso, que nós conhecemos durante o documentário”. ³

O gado

Davidson também crê que essa divisão entre vencedores x perdedores, nós x eles, os que têm x os que não têm, “nos ajuda a entender melhor o que Herzog descobre em seus documentários norte-americanos”. 4

[Isso vai ficar bem claro na cruel pintura do “sonho americano” que o diretor fará no ano seguinte, em Stroszek.]

Este filme, tanto pelo hermetismo da linguagem esquisita, quanto pelos quadrúpedes presentes, e também pelo ridículo da situação, tem parentesco com Massnahmen Gegen Fanatiker, e também padece dos mesmos defeitos.

How Much Wood Would A Woodchuck Chuck começa bastante intrigante, com a apresentação dos competidores, suas explicações algo vazias, e a guinada da história para a apresentação dos amishes. No entanto, quando começa o campeonato propriamente dito, são dezenas de minutos daquele som de corda de berimbau vibrando, gado indo e vindo, e compradores fazendo gestos típicos do gestual das partidas de truco. E o final, anticlimático, é decepcionante.

Mais um Herzog só para fanáticos mesmo. Ou no máximo, para ser visto só até a metade.


Curiosidades sobre o filme:

– O campeonato de narradores de leilão – World Livestock Auctioneer Championship, organizado pela Livestock Marketing Association – existe desde 1963 e tem até site.

– Um dos participantes do campeonato é o mesmo que vai leiloar a casa de Bruno S em Stroszek (1977).


¹ ² HERZOG, Werner. Herzog On Herzog, de Paul Cronin. Editora Faber & Faber, 2001.
³ 4 DAVIDSON, John E. In: A Companion To Werner Herzog, de Brad Prager. John Wiley & Sons, 2012.