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segunda-feira, 20 de junho de 2016

(1987) Cobra Verde



Alemanha (rodado no Brasil, em Gana e na Colômbia) | 110min | 35 mm |cor
Roteiro: Werner Herzog, a partir do romance O Vice-Rei De Ouidá, de Bruce Chatwin
Direção: Werner Herzog
Produção: Lucki Stipetić
Som: Haymo Henry Heyder
Montagem: Maximiliane Mainka
Fotografia: Victor Ruzicka
Música: Florian Fricke (Popol Vuh)
Elenco: Klaus Kinski (Francisco Manoel da Silva / Cobra Verde), King Ampaw (Taparica), José Lewgoy (Don Octavio Coutinho), Salvatore Basile (Capitão Fraternidade), Peter Berling (Bernabé), Guillermo Coronel (Euclides), Nana Agyefi Kwame II (Bossa Ahadee), Yolanda García (Dona Epiphania), Nana Fedu Abodo (Yovogan), Kofi Yerenkyi (Bakoko), Kwesi Fase (Kankpe), Benito Stefanelli (Capitão Pedro Vicente), Kofi Bryan (Mensageiro de Bossa Ahadee), Carlos Mayolo (Governador da Bahia)

Assistindo a Cobra Verde você sente às vezes que o Sr. Herzog, como um personagem de Joseph Conrad, está em risco de perder o seu caminho, ou até mesmo sua sanidade. Seu olhar, no entanto, nunca o abandona, e o terço final do filme contém sequências de sublimidade terrível e beleza etérea, momentos que têm uma clareza e um poder além do alcance da razão.” ¹

Eu já tinha assistido a Cobra Verde havia dez anos, e não havia curtido nem um pouco. Cheguei a citar, em outro capítulo desta #MaratonaHerzog, que era o pior filme do alemão que eu tinha visto. Porém, com a experiência de ver e estudar todos esses filmes, achei que minha opinião sobre tal obra poderia mudar, por que não?

Esta, que é a quinta e última colaboração entre Herzog e Klaus Kinski, é uma adaptação bem livre do romance histórico O Vice-Rei De Ouidá, do escritor inglês Bruce Chatwin (1949–1989), que, por sua vez, se inspirou vagamente na vida de um comerciante brasileiro de escravos, Francisco Felix de Souza, que se tornou poderoso em Ouidah, na Costa Oeste da África (onde hoje estão Benin, Togo e parte de Gana).

A história do filme, tal como em Fitzcarraldo, é bastante rocambolesca para os padrões herzogianos: Francisco Manoel da Silva é um camponês no sertão nordestino que mata o dono da mina onde trabalhava por falta de pagamento; torna-se o bandido Cobra Verde, espécie de cangaceiro solitário, e passa a aterrorizar os vilarejos da região, até que, ao impedir a fuga de um escravo do senhor de engenho Dom Octavio Coutinho, é contratado por este, para supervisionar sua plantação de cana; porém, acaba por engravidar as três filhas do patrão; como castigo, um destino (teoricamente) pior que a morte – buscar escravos africanos já na época da repressão britânica; lá, ele consegue os escravizados, mas acaba condenado à morte, para então ser libertado pelo irmão do rei, para ajudá-lo em uma insurreição, até que o novo soberano lhe envia um último carregamento de escravos aleijados, enquanto no Brasil finalmente se proíbe a escravatura.


Kinski, solitário e soturno

De outro diretor, se imaginaria que fosse um épico com mais de três horas, cheio de ação, drama violência, certo? Certo, mas, sendo um filme de Herzog, e, mais do que isso, sendo um filme oitentista dele, dá para saber o que temos aqui: uma história complexa, ainda que convencional, inspirada em agruras tribais, com resolução desinteressada, que passa de um acontecimento ao outro sem muita paciência ou vontade de continuar o que propôs. Isso torna o filme episódico, de modo ainda mais incômodo que em Wo Die Grünen Ameisen Träumen.

As cenas se sucedem sem nenhum encadeamento temporal visível. Dá para perceber que é linear, mas o quanto? Entre uma cena e outra podem passam dias, horas, semanas, meses? Não há como saber: em uma cena, Cobra Verde está coberto de sujeira; na seguinte, está tomando chá na varanda; em outra, está prestes a ser decapitado, para, duas cenas depois, já estar liderando um exército de amazonas.

Em um filme herzogiano clássico, setentista, talvez isso não incomodasse, mas com a trama apresentada, teoricamente com começo meio e fim, isso desanima um tanto, dá a impressão de que tanto faz o filme acabar naquele momento ou durar mais umas três horas, já que roteirista, diretor e montador, aparentemente, resolveram largar mão dos planos e simplesmente improvisar.

Justiça seja feita: as imagens são belíssimas – deve ser o visual mais estonteante desde Fata Morgana – e, obviamente, Herzog não está nem um pouco interessado em discutir a moralidade da escravatura, tanto quanto em problematizar demais aspectos narrativos da história; seu interesse está sempre em usar coisas, pessoas, paisagens e até a si mesmo, dependendo do filme, como palco para sua verdade extática.

E, de fato, há muitas cenas de tirar o fôlego em Cobra Verde, com as paisagens selvagens e exuberantes da África, todas elas emolduradas pela sempre excelente trilha do Popol Vuh velho de guerra.


Beleza ameaçadora

Klaus Kinski surge exausto como em Woyzeck, mas não pelo papel pedir isso, e sim por uma possível falta de inspiração ou de vontade mesmo. Aparentemente Herzog não conseguiu mais encontrar novos aspectos do ator que pudessem ser explorados para sua obra.

Herzog ressalta: “Quando Kinski chegou para a primeira parte do filme na Colômbia ele estava caindo aos pedaços. Juntá-lo e torná-lo produtivo, para aproveitar toda a sua loucura, sua raiva e sua intensidade demoníaca foi um problema real desde o primeiro dia. Kinski era como um cavalo de corrida híbrido correria mais de uma milha, para, depois da linha de chegada, entrar em colapso”. ²

Também contribuiu muito para isso o fato de Kinski estar obcecado em filmar seu roteiro de Paganini (lançado em 1989), tendo inclusive insistido, durante anos, para que Herzog o filmasse (segundo ele, o roteiro consistia em “meia página de sexo, então meia página de violino, e assim por seiscentas páginas”). ³

Segundo o estudioso inglês de cinema alemão Lance Duerfarhd, “Cobra Verde transfigura a natureza da luta entre Kinski e Herzog. (...) Em vez de uma luta sobre o modelo dentro do filme, Cobra Verde mostra a luta que tem seu lugar entre dois filmes, entre um sendo produzido e outro por vir. De alguma forma, citando sua própria presença em um filme que ainda estava por vir, Kinski desfaz Cobra Verde. O filme dá a Kinski a oportunidade de recusar sua recusa, e parece seguir em frente com seu projeto Paganini, com Herzog de diretor, justamente como ele pretendia". 4

O próprio Herzog concorda: “Há algo com sua presença no filme, e a presença de um filme que não havia sido rodado ainda, que era Paganini. Ele estava em um filme diferente, trouxe algum clima para meu filme que não pertencia a ele, e até hoje tenho algumas dificuldades com certas partes do filme". 5

A relação pessoal entre diretor e ator também havia chegado ao limite: “A produção foi, simplesmente, a pior na minha vida e jurei publicamente depois de filmar que eu jamais voltaria a trabalhar com Kinski. Na época, eu pensei comigo mesmo: 'Será que alguém por favor pode entrar e continuar o trabalho com este homem? Eu já tive o suficiente.' Havia algo sobre a presença de Kinski no filme que significava um mau cheiro estranho ao filme - seu mau cheiro – que permeou o trabalho que fizemos juntos lá, e Cobra Verde sofre um tanto por causa disso”. 6

A relação com a equipe também nunca fora tão ruim, mesmo para os padrões kinskianos: “A cada dia eu não sabia se o filme seria concluído porque Kinski aterrorizou todos no set. Ele iria parar de filmar, mesmo se um dos botões no seu traje estivesse muito solto. Na verdade, ele aterrorizou o diretor de fotografia Thomas Mauch [antigo colaborador de Herzog] e eu tive que substituí-lo na primeira semana. Esta foi uma das piores coisas que eu já fiz na minha vida. Thomas amou o filme, mas, infelizmente, sentiu o peso de Kinski no início da batalha. Eu escolhi o seu substituto, o tcheco Victor Ruzicka [1943-2014], porque eu tinha ouvido falar que ele era fisicamente forte, constituição de camponês, e muito paciente. Qualquer outra pessoa provavelmente teria saído dentro de duas horas”. 7

Somando tudo isso ao fato já mencionado de que Kinski não estava bem sequer consigo mesmo, só poderia desaguar em um filme fraco. Ainda mais que o resto do elenco não tem peso o bastante para levar a produção a cabo: exceto por José Lewgoy (1920-2003), que, mesmo aparecendo pouco, é sempre alentador, o resto do numeroso plantel vai e vem meio indistintamente, sem profundidade, sem gerar empatia ou interesse.


Kinski e seu semblante cansado

Cobra Verde também desagradou muita gente por não ser crítico à escravidão ou mesmo tentar contextualizá-lo de alguma forma, e sim apenas mostrá-la como parte (central, aliás) da história que pretendia contar (parece que Herzog nessa época desagradou quando foi panfletário e quando não foi, vide Wo Die Grünen Ameisen Träumen e Ballade Vom Kleinen Soldaten).

Isso pareceu irritá-lo, dadas algumas de suas declarações sobre a polêmica: “Herzog afirma que o filme foi deliberadamente feito para não ser uma declaração sobre a moralidade do tráfico de escravos: ‘O filme nunca denuncia a escravidão. Funciona dentro do clima e do pensamento daquele tempo... isso, claro, é até certo ponto politicamente incorreto. Mas e daí? Não tenho nenhum problema com isso’”. 8Não, o filme não é sobre a história do colonialismo, como o romance de Chatwin também não é. E eu não o considero um filme histórico, assim como eu nunca vi Aguirre... como sendo, de qualquer forma, histórico. (...) Cobra Verde é sobre grandes fantasias e loucuras do espírito humano, não sobre colonialismo”. 9O fato é que, em Gana, onde filmamos, a escravidão ainda é uma espécie de tabu, ao contrário do colonialismo. Nos Estados Unidos e no Caribe há muito debate sobre a escravidão, no Brasil também, mas em muitos lugares na África a ferida da escravidão é tão profunda e dolorosa que quase ninguém fala sobre isso em público. É um assunto quase intocado. Eu sempre suspeitei que uma das razões para isso é o fato bem estabelecido de que reinos africanos estavam envolvidos no tráfico de escravos, quase tanto quanto os comerciantes brancos. Houve também uma grande quantidade de comércio de escravos entre o mundo árabe e África negra, e mesmo dentro das próprias nações africanas". 10

Sobre a própria locação principal do filme, o diretor afirma: “A África sempre me atraiu, mas de forma diferente de Hemingway. Nunca me senti atraído pelo fascínio nostálgico do Kilimanjaro ou dos safáris, mas sim pelo fato de ser um continente cheio de mistérios. Claro que todas as vezes em que fui lá acabaram mal, com a possível exceção da filmagem de Cobra Verde. Normalmente o que acontecia era que eu adoecia, ou era preso, coisas assim”. 11

Escravidão

Aí vem a pergunta: mas o filme é tão ruim assim mesmo? Olha, embora tenha cenas belíssimas, e várias sequências de impacto – incluindo o amargo final – e seja perfeitamente inserido no cânone herzogiano (não há nenhuma grande ruptura, pelo contrário, é uma continuação normal do trabalho dele a época), Cobra Verde parece tão cansado, amargo e desconfortável quanto seu protagonista.

O protagonista é um óbvio anti-herói herzogiano, com uma amargura que se deixa entrever esperança e desengano na mesma medida, em meio à natureza igualmente bela e hostil, sendo um peão em lutas de poder muito maiores do que ele. A jornada de Cobra Verde é uma grande peregrinação a um lugar qualquer que lhe sirva.

Porém, no final, o que resta e lutar inutilmente contra a maré inexorável, empurrando o pesado barco que não cede. Não adianta fugir, tudo é em vão, somos prisioneiros em nossa existência na natureza hostil e indiferente. Tanto a ele quanto ao escravo com poliomielite que some, manquitolando, no horizonte.

Como diz a estudiosa italiana de cinema Grazia Paganelli: “É como se o olhar, sublinhando as preocupações claustrofóbicas do protagonista, tivesse decidido se encerrar no breve espaço entre o forte e o mar, com o olhar sempre voltado para um regresso impossível. Na cena final, Cobra Verde, perdido tudo e perdido o poder, não consegue sequer mover o barco, com o qual poderia lançar-se ao mar. A ele, que subverteu as regras de todos os lugares onde esteve, nem sequer lhe é concedido perder-se na paisagem imensa do oceano”. 12

De fato, a cena final impressiona, como fez ao próprio diretor, sinalizando que aquele também era o esforço artístico final de Klaus Kinski na filmografia que ambos construíram: “Houve momentos em Cobra Verde dos quais nunca vou esquecer. A cena final em que ele tenta empurrar o barco para o oceano está cheio de tanto desespero, e Kinski é magnífico enquanto cai na água. Mas eu sabia era o momento em que poderíamos ir mais longe no filme, e eu disse isso a ele. Não havia nada que eu gostaria de ter descoberto com ele além do que eu já tinha descoberto nesses cinco filmes. Ele tinha certas qualidades que senti e que nós exploramos juntos, mas qualquer coisa além de Cobra Verde teria sido repetição”. (...) “A cena final de Cobra Verde foi o último dia de filmagem que nós fizemos juntos na vida. Ele tinha posto tanta intensidade nessa cena final que ele simplesmente se desfez depois. Mesmo no momento ambos percebemos isso, e ele mesmo me disse: 'Não podemos ir mais longe. Eu não sou mais". 13



Klaus Kinski e seu inútil esforço final


Mas, mesmo com essa contextualização, o ‘todo’ não funciona, fazendo deste um dos piores herzogs que vi, junto com Herz Aus Glas, Huie’s Sermon e How Much Wood Would A Woodchuck Chuck. A década de 1980 segue não muito auspiciosa para o diretor alemão. Porém, a #MaratonaHerzog segue.


Curiosidades:

– o papel do Rei Bossa Ahadee de Dahomey é interpretado por um ‘rei’ de verdade o omanhene (espécie de governante tribal) de Nsein, um vilarejo ganês, e sua corte, de aproximadamente 300 pessoas, foi usada como arte da figuração do filme, improvisadamente;

– outra figuração utilizada de improviso foi a dos guerreiros da tribo Bolgatanga, que aparecem na praia quando da chegada de Cobra Verde;

– para a reconstrução da residência real, especialmente as caveiras cenográficas, a produção contrabandeou gesso da Costa do Marfim, onde estava sendo erigida uma grande catedral;

–  Herzog conta uma das curiosidades/dificuldades com as mulheres do exército de amazonas: “Outra vez tivemos que alinhá-las no pátio interior da fortaleza dos escravos para pagá-las. Nós abrimos apenas uma pequena passagem através da porta principal, o que significava que elas saíram uma após a outra, caso contrário, teriam caído sobre o dinheiro. O que aconteceu foi que 800 delas forçaram a porta ao mesmo tempo e foram esmagando as que estavam na frente, quase até a morte. Algumas desmaiaram, e eu só dissipei a situação puxando um policial próximo e fazendo com que ele disparasse três tiros para o ar, fazendo-as recuar”; 14

– originalmente, o filme seria lançado nos EUA pela De Laurentiis Entertainment Group, o que certamente garantiria ampla distribuição, mas, com a falência da empresa, o filme nem passou nos cinemas de lá, e só foi distribuído direto em vídeo, em 2000, pela Anchor Bay;

– Sobre a frase final do filme (“Os escravos venderão os seus senhores e lhes crescerão asas”), Herzog diz: “Não sei se encontrei essa citação no livro de Chatwin ou se foi produto da minha imaginação. Provavelmente não está no livro”. 15

– Herzog e Chatwin se admiravam mutuamente e foram amigos desde que se conheceram, em 1984, até a morte deste, em 1989. Chatwin dizia sempre levar consigo uma cópia de Caminhando No Gelo, livro do alemão [mais sobre ele aqui];

– Segundo Chatwin, na mesma época em que Herzog decidiu filmar O Vice-Rei De Ouidá, David Bowie manifestou também manifestou interesse nos direitos do livro;

– no livro, Cobra Verde e Francisco Manoel da Silva são pessoas diferentes, e o primeiro aparece pouco na narrativa – Herzog optou por torná-los uma pessoa só no filme;

– sobre essa que foi a quinta e última parceria com Kinski, Herzog complementa: “Ele morreu em 1991 em sua casa ao norte de San Francisco. Ele tinha acabado queimar a si mesmo como um cometa. Como eu, Kinski era uma pessoa muito física, mas de uma maneira diferente. Nós complementamos bem um aos outro, porque ele fizemos tudo juntos. Ele atraiu o rebanho magneticamente e eu segurei-o junto. Kinski foi feito para mim, para o meu cinema. Às vezes eu quero colocar meu braço em torno dele novamente, mas eu acho que eu só sonho com isso porque eu já vi isso em imagens antigas dos dois de nós. Não me arrependo de nenhum momento, nenhum. Talvez sinta falta dele. Sim, agora e depois eu sentirei falta dele”; 16

– a relação com Kinski futuramente retornará a esta #MaratonaHerzog com o documentário
Mein Liebster Fiend (1999), especificamente sobre isso;

– quanto ao Paganini de Klaus Kinski, que é mesmo tão ruim quando parece, tem uma crítica bem legal aqui;

– o cineasta suiço Steff Gruber (1953–) acompanhou as filmagens de Cobra Verde e fez um documentário, Location Africa (1987), sobre isso. Herzog, aparentemente, não curtiu muito: “Não gosto nada dele porque o cineasta se afastou de sua ideia original de forma a se concentrar na sua experiência pessoal, em como se apaixonou por uma moça africana, uma das figurantes, e não gosto do tom do filme, da sua atmosfera, ou da forma como me acusa de nada saber acerca das mulheres africanas escolhidas para desempenhar o papel do exército de amazonas. Claro que se precisamos dirigir 800 figurantes e obter um resultado, se temos que treiná-los num campo de futebol, com um coordenador de figurantes italiano, sob pressão porque o tempo é escasso, é claro que não teremos tempo de estudar profundamente suas origens sociais. Claro que não percebi a totalidade de suas situações! Gostei delas e se deram bem comigo. (...) Não gosto do tom de queixinhas desse filme. Não interessa se alguém me descreve de modo negativo, façam-no à vontade, isso não me incomoda, mas não gosto é da atmosfera de queixume constante que inunda o filme”. 17

– A banda de death metal norueguesa radicada na Itália Hideous Divinity lançou em 2014 um álbum conceitual sobre Cobra Verde.


¹ http://www.nytimes.com/2007/03/23/movies/23cobr.html?_r=0
2 3 5 6 7 9 10 13 14 16 HERZOG, Werner. In: Herzog On Herzog, de Paul Cronin. Faber & Faber, 2001.
4 DUERFAHRD, Lance. The Friendship Of Klaus Kinski And Werner Herzog. In: A Companion To Werner Herzog, de Brad Prager. Wiley-Blackwell, 2012.
8 Herzog, Werner. Comentário do diretor no DVD de Cobra Verde. In: The Cinema Of Werner Herzog: Aesthetic Ecstasy And Truth. Wallflower Press, 2007.
11 12 15 17 PAGANELLI, Grazia. Sinais De Vida: Werner Herzog E O Cinema (Segni Di Vita: Werner Herzog E Il Cinema, 2008). Editora Indie Lisboa, 2009.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

(1982) Fitzcarraldo

Alemanha (Peru e Brasil) | 137min | 35 mm |cor
Roteiro e direção: Werner Herzog
Produção: Walter Saxer, Lucki Stipetić e Werner Herzog
Som: Petra Mantoudis
Montagem: Beate Mainka-Jellinghaus
Fotografia: Thomas Mauch
Música: Florian Fricke (Popol Vuh) e excertos de Richard Strauss, Guiseppe Verdi, Leoncavallo, Meyerbeer, Michael Vuylsteke, Jules Massenet, Giacomo Puccini, Vincenco Bellini e gravações originais de Enrico Caruso
Elenco: Klaus Kinski (Brian Sweeny ‘Fitzcarraldo’ Fitzgerald), Claudia Cardinale (Molly), José Lewgoy (Don Aquilino), Paul Hittscher (capitão), Miguel Angel Fuentes (Cholo), Rui Polanah (Don Araújo), Huerequeque, Milton Nascimento, Grande Otelo

Minha existência foi reduzida a uma só dimensão: uma trilha e um navio diante dela.” ¹

Além do fato de ficção e documentários serem gêneros não muito distinguíveis na obra de Werner Herzog, outro ponto importante é que as histórias absurdas que envolvem cada produção, dado o modo ‘guerrilha’ como tudo é feito (com pouco dinheiro, muito improviso e pouco apreço por normas de segurança por parte do diretor), também fazem parte do produto cinematográfico final. E me nenhuma obra de sua extensa filmografia isso é tão evidente, importante e indissociável como em Fitzcarraldo, considerado, mais do que a obra-prima do diretor, a síntese de todo o seu trabalho.

A história em si é até convencional, para os padrões herzogianos, e até um tanto intrincada demais: o empresário irlandês Brian Sweeney Fitzgerald, chamado de Fitzcarraldo pelos nativos amazônicos, que lhe conheciam desde a frustrada tentativa de de construir uma ferrovia transandina, ligando a Amazônia ao Pacífico – empreitada de boa parte de sua vida, que o levou à falência e lhe rendeu o epíteto de Conquistador do Inútil, reforçado pelo malograda fábrica de gelo que ele tentava manter na região desde então.

Sem esmorecer, o irlandês sonhador resolve se dedicar a outro grande sonho: construir uma casa de ópera no meio da salva, na cidade de Iquitos, na Amazônia Peruana, a fim de mostrar aos locais a beleza da música erudita. Fã do italiano Enrico Caruso, o provável maior tenor de todos os tempos, Fitzcarraldo pretende trazê-lo para inaugurar o teatro.

Seguindo os conselhos de um empresário local, Fitzcarraldo resolve investir no então lucrativo mercado regional da borracha, conseguindo a concessão governamental para explorar uma área ainda virgem.

Com dinheiro emprestado de sua amante, Molly, dona de um bordel, Fitzcarraldo compra um barco a vapor, arregimenta uma tripulação de locais e se aventura em territórios selvagens a fim de alcançar o terreno que adquiriu. Porém, a fim de evitar corredeiras e quedas d’água, o irlandês pretende inaugurar uma nova rota de comércio de borracha, adentrando território indígena, chegando ao extremo de carregar o barco morro acima, até outro curso d’água, menos rebelde. 

Rumo a mais um sonho

O argumento foi levemente inspirado na história do exporador e comerciante Carlos Fermín Fitzcarrald (há inclusive uma privíncia peruana com seu nome), um barão da borracha, filho de pai americano e mãe peruana, que descobriu um istmo (que também foi batizado com seu nome) entre dois rios, pelo qual atravessou com seu barco sobre o trecho entre dois afluentes do Amazonas.

Na vida real, o navio pesava apenas 30 toneladas (contra as 300 do filme), e foi transportado em pedaços, não inteiro. Além disso, o Fitzcarraldo de carne e osso era um grande explorador de índios, que foram forçados, sob ameaça de morte, a fazer o trabalho.

Herzog explica: “O verdadeiro Fitzcarraldo não era muito interessante em si, apenas outro deplorável homem de negócios da virada do século [20], enquanto que a história do ciclo da borracha no Peru não me interessava nem um pouco. O amor de Fitzcarraldo pela música era minha ideia, pensando que, de fato, os barões da borracha do século passado [19] realmente construíram uma casa de ópera o Teatro Amazonas em Manaus. Então os elementos históricos reais da história eram para mim meramente um ponto de partida”.² A ideia do alemão era fazer “não uma história sobre borracha, mas sobre uma grande ópera na selva com esses elementos de Sísifo”. ³

E sobre a escolha de transpor a colina com o barco inteiro, e não aos pedaços: “Eu falei [a Laplace Martin, engenheiro brasileiro da equipe, especialista em transportes pesados] que não deixaria que [Laplace e o diretor de produção Walter Saxer] fizessem tal coisa [aplainar a subida para o terreno ficar parecido com a abertura de um istmo, facilitando o transporte do barco], pois assim perderíamos a metáfora central do filme. Metáfora de quê, ele me perguntou. Eu disse que não sabia, sabia apenas que era uma grande metáfora. Talvez fosse também só uma imagem adormecida em todos nós, e eu seria aquele que a apresentaria a um irmão que jamais a tivesse visto”. 4

Bem, podia ser pior: “Por um longo tempo a Twentieth Century Fox esteve interessada em produzir o filme [eles já haviam produzido Nosferatu], mas ele propuseram que usássemos maquetes de barco e colina, e aquilo estava fora de questão para mim”. 5

Para a empreitada, Herzog encomendou 700 nativos, que operaram um sistema de polias. E Laplace se afastou do projeto quando Herzog optou por continuar, mesmo depois que o engenheiro afirmar que havia 70% de chance de os cabos quebrarem e ferir os trabalhadores. 

Sísifo

As coisas já não estavam fáceis, como já se pode notar; só pré-produção já havia durado uns três anos [há um relato detalhado disso no diário Conquista Do Inútil, escrito à época pelo próprio Herzog. Porém, quando 40% do filme já havia sido rodado, duas hecatombes: com tanto atraso, tinha chegado a hora de Mick Jagger se juntar aos Stones para mais uma turnê (do disco Tattoo You, de 1981), e o pior, o protagonista, Jason Robards, com uma terrível desinteria, deixou as filmagens e foi proibido pelos médicos de voltar.

A pergunta para a qual todos queriam resposta era: teria eu os nervos e a força para começar tudo de novo? Eu disse que sim, caso contrário eu seria uma pessoa desprovida de sonhos, e sem eles eu não queria mais viver.6


O crítico norte-americano de cinema Roger Ebert (19422013) destaca um desses momentos: “Na hora mais escura em Fitzcarraldo, quando Robards adoeceu e ele teve que abandonar quatro meses de filmagem, Herzog voltou a pedir dinheiro aos investidores. Eles tinham ouvido dizer que ele estava achando impossível passar o barco através da montanha, e perguntaram se não seria mais prudente encarar as perdas e desistir. Sua resposta: ‘Como vocês podem fazer essa pergunta? Se eu abandonar esse projeto, eu vou ser um homem sem sonhos, e eu não quero viver assim. Eu vivo minha vida ou eu termino minha vida com esse projeto’”. 7

[Enquanto isso, a imprensa alemã publicava todo tipo de factoide sobre a produção, de exploração dos índios a mortes em acidentes trágicos nos set, fosse o diretor um novo barão imperialista.]

Pois ele decidiu recomeçar. Afinal, como ele mesmo disse, “Não foi dinheiro que puxou aquele barco sobre a montanha, foi fé8. Eliminou o personagem de Mick Jagger e chamou o infame Klaus Kinski para o papel principal. Kinski era perfeito para o papel, mas, claro, isso trouxe outro problema às filmagens: chamado como “salvador da pátria”, veio ainda mais insuportável do que fora em Aguirre, Der Zorn Gottes, a ponto de os índios do elenco se oferecerem a Herzog para matar o problemático ator. Nos extras do DVD do filme, o próprio diretor diz: “Kinski era um verdadeiro problema; às vezes eu queria que eles o tivessem matado”.

[Em Mein Liebster Fiend (1999), Herzog relata, além da oferta mórbida dos índios, que ele mesmo ameaçou Kinski de morte, com uma espingarda (quando este estava ameaçando abandonar as filmagens), dizendo que o mataria e depois cometeria suicídio versão desmentida por ele mesmo em entrevistas posteriores.]

De todo modo, apesar de coisas como incidentes com milícias peruanas e tropas antiterror do governo, Ataques com flechas, membro da equipe (Thomas Mauch) quase perdendo a mão num acidente enquanto filmava o clímax da história, habitante local sendo picado por uma cobra venenosa e cortando o próprio pé com uma motosserra para sobreviver, acidentes de avião, o filme seguiu seu curso tortuoso, feito o barco a vapor pelas corredeiras.

São tantos problemas, da pré-produção até o filme ficar pronto, que não há como relatar tudo aqui. É recomendável que se leia Conquista Do Inútil, diário que Herzog escreveu no dia a dia, à época, e só publicado recentemente; e praticamente obrigatório que se veja o documentário Burden Of Dreams (1982), do documentarista americano Les Blank (19352013), amigo do alemão, que acompanhou parte da produção e fez belos registros de todo o épico que foi a feitura do filme, além de conter as únicas cenas que ainda existem das filmagens com Robards e Jagger. Com isso toda essa odisseia tem sua dimensão melhor compreendida.

E o impossível vai tomando forma


Mas aí vem a pergunta inevitável, depois de tanto preâmbulo e tanta história: o filme é bom?, o filme funciona?, o filme é digno de tanta mística em torno dele?

Vamos lá: quando vi Fitzcarraldo pela primeira vez era um dos meus primeiros herzogs da vida adulta, explico um pouco disso e da própria #Maratona aqui fiquei maravilhado, ainda que já o tivesse achado um tanto longo.

Tanto que, durante as pesquisas para este post, já tinha decidido que discordaria veementemente das reclamações feitas pela crítica brasileira Lúcia Nagib (provável maior especialista no Brasil sobre o diretor) em seu livro Werner Herzog: O Cinema Como Realidade, de 1991. Bom, em uma coisa ela continua errada, e nem sou eu quem a corrige: parte da crítica dela se baseia em comparações com Aguirre, Der Zorn Gottes, e, segundo o diretor, apesar de ambos terem “Peru, selva e Kinski”, 9 ele explica que Fitzcarraldo tem muito mais a ver com Die Große Ekstase Des Bildschnitzers Steiner, porque ambos os homens “são sonhadores que querem desafiar as leis da gravidade”. 10

No geral, Lúcia vê nesse período NosferatuFiztcarraldo um ponto de inflexão, em que o diretor perde suas muito de suas características mais rústicas (até pelo relativo sucesso das obras anteriores, o que leva a mais dinheiro para a produção, e, consequentemente, maiores pretensões) e ganha feições mais pomposas/pasteurizadas, “banalizando e submetendo às regras de mercado qualidades que eram a alma de seus filmes anteriores”. 11

[A década de 1980 é reconhecidamente a mais convencional e menos interessante do diretor, mas é algo que veremos “pessoalmente” nos próximos passos da #Maratona.]

O filme tem muitos problemas: o roteiro é muito intrincado (para os padrões herzogianos), porém, mesmo com a longa duração do filme, as coisas se resolvem de forma frouxa, quase deus ex-machina; Kinski faz um grande trabalho, como sempre, mas a obsessão de Fitzcarraldo com a ópera na selva nunca é justificada consistentemente (para Nagib, “O bom humor com que Fitzcarraldo encara o resultado de seus atos no fim do filme nos faz concluir por quase uma leviandade de seu caráter12; os demais personagens não são bem construídos (os índios são quase parte do cenário, de tão indistintos); diante da ascensão e queda (literal e figurativamente) do barco a vapor, a própria história da ópera fica em segundo plano.

O próprio diretor, compreensivelmente, parece exausto ao término de tudo aquilo, ainda que esta constatação derradeira sirva, mais do que nunca, para uni-lo com tudo que houve dentro e fora do filme: “Não houve nenhuma dor, nenhuma alegria, nenhuma felicidade, nenhum som e tampouco um suspiro profundo. Era apenas a compreensão de uma grande inutilidade, ou, mais exatamente, eu tinha apenas penetrado de maneira mais profunda em seu misterioso reino13.

Muitos críticos também viam no modo simpático como Herzog retratou o colonizador (ao contrário do que fez em Aguirre, Der Zorn Gottes), seria uma exaltação do imperialismo; o escritor e jornalista holandês Hans Koning (19212007) chegou ao cúmulo de dizer que Fitzcarraldo seria "o tipo de filme que veríamos muito se a Alemanha tivesse vencido a guerra" 14.

Mas é Lúcia Nagib, em uma análise bem mais recente, que fornece a explicação mais plausível para a falta de unidade do filme, ressaltando que não foram os problemas todos da produção que afetaram o resultado final, "mas uma tentativa mal-sucedida de juntar um grande número de tópicos desconexos: a história de um irlandês que carregou partes de um barco sobre a terra entre dois afluentes amazônicos; a fascinação de Herzog com dólmens e menires de Karnak [a técnica de construção monumental egípcia foi usada na subida do barco morro acima], seu interesse em ópera; sua pressa em adentrar o mundo das celebridades ao escalar gente como Jason Robards, Mick Jagger e Claudia Cardinale; e mais um pot-pourri de citações descontextualizadas ao Cinema Novo, como Milton Nascimento, José Lewgoy e Grande Otelo". 15

Mas e aí, fora toda a tragicomédia da produção, e da loucura do transporte do navio em cena, nada se salva do filme?, você deve estar se perguntando.

A Queda


Sim, claro que vale. Continua sendo obrigatório (mais ainda em uma sessão dupla com Burden Of Dreams), pois todos os elementos herzogianos estão lá, imponentes, intocados, ainda que alguns estejam diluídos, como a inevitabilidade do fracasso e as cenas com animais, que surgem belas (e não grotescas, como na maioria das vezes), mesmo sem terem a ver com a história.
 
Temos o protagonista outsider, deslocado tanto no tempo quanto no espaço, com suas ideias fixas; temos a natureza sempre inóspita e hostil, e da solidão (ainda que ambos surjam bem atenuados aqui); o interesse em cenas, especialmente com animais, que surgem belas, mesmo sem terem a ver com a história não à toa, no início do filme, é citada uma suposta lenda local de que a região seria “a terra onde Deus não terminou a Criação”, e que “somente quando o homem for extinto Deus voltará para terminar seu trabalho; é sempre a Criação incriada e de mal com os seres vivos. Em Burden of Dreams, Herzog diz que aquela selva é "uma terra que Deus, se ele existe, criou com raiva".

E, acima de tudo, mesmo com certa convencionalidade na forma, e com os tons épicos que envolvem as sequências de desafio & fracasso do barco contra a natureza, é um filme essencialmente contemplativo, com muitos de planos cheios de quietude mesmo com todo aquele ‘ruído’ que a história, e tudo que a envolve, produz. Nas palavras do especialista norte-americano em cinema alemão Brad Prager, é "a recorrente fascinação com o poder do silêncio além e acima da linguagem; estranhamente, o silêncio prevalece neste filme sobre ópera”. 16

Roger Ebert vai além: “O fime é imperfeito, mas transcendente: esta história não poderia ser filmada nessa locação, desse jeito, e ser perfeita, sem perder um tanto como filme. (...) O que é crucial é que Herzog não tem pressa com sua história; ele busca não o progresso do roteiro, mas a ressonância das imagens. Considere a sequência onde o barco realmente se joga e se bate no caminho através do perigoso Pongo das Mortes; outro diretor poderia ter feito disso uma cena rotineira de ação, com cortes rápidos e muito barulho; Herzog faz isso em uma lenta e terrível procissão descendo por correntezas de verdade em um barco de verdade, com um fonógrafo tocando Caruso até que a agulha seja jogada pra fora do disco. Isso parece muito mais horrível que a grande embarcação lentamente flutuando até seu destino”. 17

Apesar de tudo, é outro dia


Por isso, por mais que a conclusão do diretor à época tenha sido tão (compreensivelmente) pessimista e desolada, é exatamente essa tensão entre o que desejamos fazer e o que conseguimos obter, entre o que podemos controlar e o que simplesmente deve ser deixado ao acaso, que define nossa existência, queiramos ou não. E aceitar isso, como o Sísifo greco-camusiano, pode nos dar forças para recomeçar sempre que as coisas se desmancham diante de nós.

Com a palavra, nosso ‘homem absurdo’ cinematográfico, já mais consciente do que foi sua jornada: “Uma imagem como uma embarcação se movendo por uma montanha parece nos dar toda a coragem para nossos próprios sonhos. Este é um filme que desafia as mais básicas leis da natureza. Barcos não foram feito para voar sobre montanhas. A história de Fitzcarraldo é a vitória da leveza dos sonhos sobre o peso da realidade. Ela desafia diretamente a gravidade, e ao final do filme espero que o público se sinta completamente contente e mais leve do que quando entrou”. 18

Somos todos, cada um ao seu modo, todos os dias de nossas vidas, grandes conquistadores do inútil.


Curiosidades:

a despeito das críticas negativas em sua terra-natal, Werner Herzog venceu, em 1982, por Fitzcarraldo, os prêmios de Melhor Diretor nos festivais de Cannes (França) e San Sebastián (Espanha).

O roteiro do filme foi escrito na casa de Francis Ford Coppola, grande admirador de Herzog (Aguirre, Der Zorn Gottes é influência confessa para Apocalypse Now, ainda que o caos deste acabe tendo também muito de Fitzcarraldo), em São Francisco, em oito dias.

Herzog foi ao set de filmagens de The Shining (‘O Iluminado’, no Brasil) encontrar Jack Nicholson, pois este queria participar de Fitzcarraldo mas a ideia não vingou, já que o ator não queria ir à selva, sugerindo inclusive que tudo fosse feito em estúdio (sua pedida de salário, US$ 5 milhões, também não ajudou segundo Herzog, o filme inteiro custou US$ 6 milhões); quando soube que o alemão estava no local, Stanley Kubrick, também admirador da obra herzogiana, convidou o diretor para um almoço.

Após a saída de Jason Robards, Herzog chegou a cogitar a si mesmo como protagonista (mas desistiu ao perceber que “projeto e personagem haviam se tornado idênticos”)19, antes de decidir pelo notoriamente problemático Kinski, “a última pessoa capaz de suportar um trabalho assim”. 20

A geografia da região onde se passa o filme não é exatamente como mostrado no mapa exibido na primeira parte do filme, é quase ficcional de tão pouco acurado, tendo sido alterado para servir à história.

Uma vez transportado até o alto da colina, o barco teve que que ficar encalhado lá por seis meses, pois a produção viu que o rio do outro lado estava com profundidade insuficiente para ser navegado; Herzog, então, pagou a uma família local (casal, cinco filhos e um casal de porcos) para que vivessem na embarcação (e cuidando dela) até que pudesse ser descida às margens, com água suficiente, o que levou seis meses para acontecer – outras partes da história foram filmadas enquanto isso. 

No apagar das luzes de Conquista Do Inútil, Herzog conta que certo integrante da equipe, não revelado, teve insanidade temporária durante a produção (“felizmente um episódio passageiro”), o que incluiu confusão mental, agressividade, se vestir como se fosse um índio pronto para a guerra, incêndio à cabana do diretor e até tomar como reféns duas jovens da cidade.

Chegou um ponto em que Herzog, cansado dos rumores sensacionalistas que a imprensa (não só a alemã, mas de toda a Europa) publicava, começou a combatê-los com boatos ainda piores. Por exemplo: quando a mídia italiana apareceu com a história de que Claudia Cardinale teria sido atropelada por um caminhão e estaria em estado grave, Herzog respondeu que “não só aquilo era verdade, como também o motorista do caminhão estava bêbado e tinha estuprado a vítima inconsciente”. E, assim, os boatos foram rareando.

Além da importante atuação de José Lewgoy (1920–2003) que reapareceria em Cobra Verde, de 1987 –, e da ponta de Milton Nascimento, vale mencionar a pequenina participação de Grande Otelo (19151993), uma vez que ele foi o protagonista de Macunaíma, de onde saiu a frase que dá nome a Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle.

Além de Conquista Do Inútil e de poemas esparsos, Herzog também escreveu o belíssimo Caminhando No Gelo (de 1978, traduzido por Lúcia Nagib em 1982) – do qual ele dizia gostar mais do que de todos os seus filmes , narrando quando, em dezesseis dias no final de 1974, andou de Munique a Paris (uns 800 km), numa jornada de tons ao mesmo tempo épicos e introspectivos, a fim de visitar a amiga doente, narradora de Fata Morgana, Lotte Eisner (historiadora e crítica alemã de cinema) Herzog decidiu que sua peregrinação, em sacrifício, salvaria a vida da amiga (por causa disso ou não, Lotte, nascida em 1896, só morreria em 1983).

Les Blank, de Burden Of Dreams, também dirigiu o divertido curta Werner Herzog Eats His Shoe (1980), que mostra Herzog cumprindo a aposta que fizera com o amigo norte-americano Errol Morris, como forma de mexer com seus brios: se ele conseguisse terminar seu primeiro documentário, Gates Of Heaven (sobre o negócio de cemitérios para animais), o alemão comeria os próprios sapatos (supostamente, no filme, ele come os mesmos que usava quando a aposta foi feita); enquanto o “prato” é temperado, há discussões sobre os efeitos destrutivos do capitalismo e da televisão sobre o imaginário da humanidade, além de menções à a promessa feita e cumprida na filmagens de Auch Zwerge Haben Klein Angefangen.

Herzog diz gostar de Burden Of Dreams, mas com ressalvas, tanto pelo fato de não ser muito abrangente (Les Blank acompanhou apenas cinco semanas, dos mais de três anos que o filme levou para ser terminado) quanto por algumas edições e alguns cortes que teriam aumentado o clima de perigo que haveria para a toda a equipe.

No episódio On a Clear Day I Can't See My Sister (2005), d’Os Simpsons, há uma cena em que os estudantes são forçados a puxar o ônibus escolar montanha acima; o alemão Üter reclama “Estou me sentindo como Fitzcarraldo!” e Nelson soca seu estômago, enquanto diz “Esse filme foi um fracasso!”.

Das tantas citações musicais ao filme, vale destacar o álbum Fitzcarraldo (1996), da banda irlandesa de pop rock The Frames, em cuja faixa-título o eu-lírico se compara a “alguém puxando um barco montanha acima”.


¹ 6 13 19 20 HERZOG, Werner. In: Conquista Do Inútil. Martins Fontes, 2013.
² ³ 4 5 8 9 10 18 HERZOG, Werner. In: Herzog On Herzog, de Paul Cronin. Faber & Faber, 2001.
7 17 EBERT, Roger. In: http://www.rogerebert.com/reviews/great-movie-fitzcarraldo-1982
11 12 NAGIB, Lúcia. Werner Herzog: O Cinema Como Realidade. Estação Liberdade, 1991.
14 KONIG, Hans. Crítica de Fitzcarraldo em 1983 no Film Qarterly, apud Brad Prager em The Cinema Of Werner Herzog: Aesthetic Ecstasy And Truth. Wallflower Press, 2007.
15 NAGIB, Lúcia. Physicality, Difference, And The Challenge Of Representation. In.: A Companion To Werner Herzog, de Brad Prager. Wiley-Blackwell, 2012.
16 PRAGER, Brad. The Cinema Of Werner Herzog: Aesthetic Ecstasy And Truth. Wallflower Press, 2007.